domingo, 31 de julho de 2011

O Coração Tem Razões Que a Própria Razão Desconhece... (há muito tempo escrito , mas sempre atual)



Tamanha fora minha surpresa e indignação em deparar-me com um garoto argentino torcendo para a Holanda, embora não tenha nascido em tais terras, tenha em algum destes países suas raízes ou tenha vivido por algum tempo que seja em tais locais , cujo nascimento, não sabemos se por acaso, se dera no Brasil , tudo em pleno calor do jogo Brasil x Holanda, e na dor inevitável aos brasileiros diante de uma derrota sem sentido, pois não se dera a luta pela sobrevivência, para um povo cuja esperança é a última que morre, que me deixei levar pela insanidade e me vi torcendo para a Alemanha neste sábado , ou melhor, me vi torcendo contra Argentina, o que é pior.

Assim, me igualei a tantos insanos que costumo criticar, sou humana, pois bem.

O politicamente correto seria que a minha torcida, como a de todos os sulamericanos , se desse para a aguerrida, sem dúvida, seleção Argentina tal por razões óbvias, como se o amor ao futebol tivesse alguma coisa de óbvia e de lógico .

Seja porque a Argentina é um dos representantes da América do Sul, nosso vizinho, seja porque já se estabelecera uma disputa entre a Europa e a América pela superioridade em copas do mundo, seja porque o povo argentino certamente necessitaria, por tantas notórias razões, desta vitória para acalmar os ânimos já exaltados por tantas desventuras.

São, de fato, justos os motivos para impor uma torcida para os argentinos...Entretanto, a questão é, se assim poderíamos dizer ,de honra brasileira, é paixão, é puro nacionalismo, que seja, e tudo isto beira a insanidade e ao caos emocional.

Diante de um brasileirinho, mais argentino do que qualquer um deles, me senti na obrigação de ser mais brasileira do que nunca e assim torcer insanamente contra aqueles que, insanamente, torcem, independentemente, de quem seja o adversário e as circunstâncias, contra o Brasil, portanto contra os brasileiros e eu sou uma brasileira.

Então, me penitencio pela minha paixão desmedida pelo meu chão, pela terra em que tenho minhas origens e pelo povo brasileiro e por não ter tido a sensatez suficiente para torcer por nossos irmãos argentinos. Assim, peço desculpas sinceras aos nossos irmãos, quem de nós será Caim ou Abel, não sabemos, mas se trata de uma questão passional mal resolvida.

Após o esmagador placar de 4x0 para a Alemanha, terminamos com a alma lavada e a razão maculada.

O que mais me entristece... ( escrito há muito tempo, mas sempre atual)





Hoje com a triste derrota do Brasil para Holanda, triste não apenas pela derrota em si, mas pelo nítido despreparo emocional, praticamente, entregando a seleção brasileira o jogo ao adversário, derrotado, portanto, o seu e o meu Brasil desde o primeiro gol da Holanda, esta , sim, incansável acreditando a todo o tempo em seu poder de superação, o que mais entristeceu foi me deparar com um garoto , brasileiro da gema , filho de brasileiros, que mora , come ,caminha, cresce , apreende , se torna gente em seu, digo, em nosso país e que jamais residira fora do seu, digo, nosso lugar , estridente e assumidamente, sem qualquer pudor ou vergonha , torcedor nato da Argentina , como se lá tivesse suas raízes , como se andasse diuturnamente naquele chão , hoje torcer para a Holanda.

Certamente, porque entendera ele que a Holanda seria um adversário mais fácil para a sua pátria postiça Argentina, ou, simplesmente, argentino de coração que é, embora nenhuma razão se saiba, devendo, portanto, para amenizar o olhar sobre este garoto, ser justificado por motivos além túmulo ou espirituais, fosse tomado da mesma raiva insana que, em geral, os argentinos, tendo como legítimo representante o Maradona, sentem quando o assunto é o seu vizinho, o Brasil, seja em qualquer aspecto, notadamente, o futebolístico.

Bem, senti mais uma vez que o grande problema do Brasil é justamente parte do povo brasileiro, que, ao que parece, queria ser tudo menos brasileiro, sabe Deus as razões, e sequer os políticos corruptos e desavergonhados me vieram a mente de forma tão enfática. Talvez tenha eu pretendido dar uma trégua a estas figurinhas tão patéticas.

Assim, os jovens, ainda brasileiros, é que passaram a me preocupar e me entristecer, por um simples fato, a falta de amor ao seu chão, a falta de respeito as suas origens, a falta de comprometimento com a sua história, pode parecer exagero, mas é justamente assim que tudo começa que o patriotismo necessário vai por água abaixo.

E que estes, acreditamos, poucos garotos argentinos, holandeses, alemães, ingleses que, no mais das vezes, sequer fizeram uma ou duas visitas aos seus países escolhidos, não sabemos por quais critérios, e que, querendo eles ou não, nasceram em chão brasileiro e comem em prato brasileiro, prato este que cospem a todo o tempo, sob os olhares complacentes e até orgulhosos de seus pais, não se transformem em maioria e que o futuro desta pátria mãe gentil jamais esteja em suas mãos.

Esperamos é que um dia estes garotos acordem do pesadelo e despropósito de escolher uma pátria que mal conhecem, renegando a sua, como aqueles que curiosamente optam por outra nacionalidade, e descubram que o Brasil, apesar de hoje entregar o jogo, é sim, sua pátria mãe gentil e como boa mãe perdoará os desatinos de seus jovens filhos, os acolherá e alimentará, como sempre...





sexta-feira, 17 de junho de 2011

A questão da Marcha da Maconha já vem se arrastando-Parecer datado de 2008







Parecer nº ____/2008.                Recife, 30 de abril de 2008.




                                 Procuradoria Geral de Justiça - Ofício nº _____ - Passeata em favor da liberação do uso da maconha, a ocorrer no dia 4 de maio de 2008 - Adoção de medida judicial para coibir realização do referido ato - Suposta prática de apologia e/ou incitação ao crime de uso de entorpecentes (arts. 286 e 287 do C.P.B.) - Garantia constitucional da liberdade de expressão (art. 5ª, inc. IX, da CF/88) - ausência dos elementos caracterizadores dos delitos de apologia e/ou incitação à prática de crime ao menos neste momento– Análise.


    Instado, por meio do Ofício X, oriundo do CAOPCRIM (Centro de Apoio Operacional das Promotorias Criminais) , este Órgão do Ministério Público de X, cuja representante – titular da X encontra-se em exercício cumulativo na X  analisa o cabimento e a possibilidade de adoção de medida judicial que obste a realização de passeata pela descriminalização da  maconha a ser realizada no dia 4 de maio de 2008, simultaneamente em mais de 200 cidades do mundo e mais de dez cidades brasileiras dentre elas a capital X, evento a ser realizado na X.

1. RESUMO DOS FATOS

    Segundo consta do Ofício acima indicado, no dia 4 de maio do ano em curso ocorrerá, em mais de 200 (duzentas) cidades do mundo, dentre elas mais de 10 (dez) cidades brasileiras, incluindo pela primeira vez,esta capital pernambucana uma passeata em favor da descriminalização da  maconha, chamada “ MARCHA DA MACONHA”.

    O ofício em questão encaminha para conhecimento e adoção das medidas cabíveis cópia da decisão do Poder judiciário Baiano, atendendo a Ação Cautelar Inominada do Ministério Público daquele Estado, proibindo a realização da citada manifestação pública. Ainda, remete cópia de reportagem  versando sobre  ação semelhante do Ministério Público de São Paulo sem menção quanto a decisão.

    Pois bem, merece esclarecer que esta Representante apenas tomara conhecimento de tal manifestação no final da tarde do dia 24 de abril de 2008 (quinta-feira) , o que , aliás, seria do desconhecimento de  colegas , operadores do direito diversos e até mesmo de estagiários – jovens estudantes, através de ligação do Dr. X representante do CAOPCRIM  de logo sendo convidada  para reunir-se com delegados da Narcotráfico , Policia Militar , Representante do CAOP da Cidadania e o próprio Representante do CAOPCRIM o que se dera efetivamente na manhã do dia 25 de abril de 2008, quando após exaustivo debate chegou-se a conclusão inicial de que a Policia Civil e Militar  fariam o seu trabalho, ou seja, observariam dita manifestação monitorando os participantes , inclusive através de filmagens, tudo visando evitar alguma espécie de desordem ou perturbação da ordem pública que poderia se dar em eventos desta espécie como em outras manifestações públicas, sem descuidar de qualquer monitoramento anterior a realização da tal passeata.
Entendeu-se assim pela não interposição de qualquer medida judicial em nome de princípios constitucionais basilares e do que nos era apresentado , mas sem descuidar de um monitoramento de tal manifestação in loco com todas as cautelas a serem tomadas pela polícia e até mesmo visando evitar ou coibir qualquer prática criminosa no local. Assim, tal entendimento não se modificara , não nos sendo apresentado qualquer fato novo até o envio de tal expediente.

Na análise da questão posta este Órgão do Ministério Público, inicialmente, envidou pesquisas exaustivas na rede mundial de computadores (Internet) acerca da passeata em questão, buscando informações e subsídios quanto ao efetivo conteúdo e objetivo de tal ato, com o fito de constatar a ocorrência de possível apologia e/ou incitação ao crime de consumo de entorpecentes, ou até mesmo da existência de crimes tratados pela LEI 11.343/06.

    Posteriormente, a hipótese concreta foi analisada à luz da garantia constitucional da liberdade de expressão, atempada no art. 5º, inc. IX da Carta Magna, como também examinou a questão de acordo com os parâmetros da configuração legal dos delitos capitulados no art. 286 e 287 do C.P.B, “incitar, publicamente, a prática de crime” e fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime”. Vejamos.


2. DAS INFORMAÇÕES OBTIDAS NA INTERNET ACERCA DO TEMA

 O material que dispúnhamos quando da reunião realizada no dia 25 de abril de 2008 e atualmente, afora as ações ajuizadas por alguns Órgãos do Ministério Público e três decisões Judiciais dos Estados da Bahia, Paraíba e Cuiabá, é o mesmo, ou seja, o site referente a tal marcha (www.marchadamaconha.org).

Seja naquela ocasião, seja nesta , no curto lapso de tempo de uma semana, esta Representante verificou em tal site , em suma as seguintes situações:

I- Os locais de realização da passeata , notadamente no Brasil com local preciso e horário, inclusive com as cidades cuja passeata fora proibida judicialmente;

II- Os produtos que estariam a venda através do site : Camisa     relacionada com o evento com o nome Marcha da Maconha e a figura da erva  e máscaras de personalidades brasileiras;

III- Advertência  chamando a atenção devida e com símbolos para a não participação de menores de dezoito anos e o não consumo de maconha no evento;

IV- Vídeo-convite para a marcha com advertência inicial : “Esta é uma obra de ficção e de acordo com as leis brasileiras  é ilegal fumar ou fazer apologia  à marijuana” e ao final uma outra advertência incluindo símbolos e os dizeres : “MACONHA MATA, TÁ LIGADO?”   chamando a atenção devida e com símbolos para a não participação de menores de dezoito anos e o não consumo de maconha no evento;

V- Vídeos de outras passeatas anteriores;

VI- Artigos favoráveis e contrários a realização da marcha;

VII- Programa Jornalístico sobre o evento e “ programas policiais” inteiramente contra o evento , inclusive com palavras ofensivas , estimulando o ódio  , incitando o crime como “ MORTE AOS COMUNISTAS” , “ ÓDIO  À MARCHA”  e outras ofensas desnecessárias, com o site  (www.cadeiasemcensura.com.br) programa “ Alborghetti.

VIII- Matérias jornalísticas  quanto a proibição judicial da marcha  e decisões não acatando a proibição, como se dera no Estado de São Paulo;

IX- Fóruns de debates sobre a questão , inclusive, com  opiniões diversas contra ou a favor da marcha

X- links –que não seriam, em tese,  da responsabilidade da organização da marcha e do site referente a marcha , mas que tratariam sobre o assunto do consumo, plantio, uso medicinal da 

XI- Nomes de organizadores do site e da marcha com e-mails e como procurar por tais membros( nome, foto, e-mail)


3. DA GARANTIA CONSTITUCIONAL DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO

    Como cediço, a liberdade de expressão é o substrato, o amálgama que forja qualquer democracia. Os regimes democráticos têm como marca notória a não intervenção e controle governamental sobre o conteúdo da grande maioria das manifestações sociais acerca de todo e qualquer tema, ainda que polêmico, pois, é inquestionável que o debate aberto geralmente enseja a escolha da melhor opção para o bem comum, minorando, inclusive, a probabilidade de erros sociais graves, sendo essa a maior razão para que as Constituições democráticas, como é a nossa Carta Política em vigor, eleve a liberdade de expressão ao nível de garantia constitucional.

    Com efeito, os protestos e/ou manifestações sociais (como o direito de reunião pacífica e de passeatas) sobre determinado tema, ainda que permeado de polêmica, é essencial e de fundamental importância, haja vista permitir o debate aberto e até mesmo acalorado (mas sem violência) na sociedade civil, sempre visando à escolha da melhor e mais efetiva decisão sobre determinado tema, e a exemplo de temas polêmicos temos não apenas a descriminalização da maconha , mas o aborto, o uso de armas pelo cidadão, pena de morte, e outros tantos, não apenas em passeatas , como em debates  na imprensa e ainda reportagens diversas.

    No ensejo, vale ressaltar que a liberdade de expressão encontra-se expressa não apenas em pergaminhos constitucionais, como também em diversos textos e documentos internacionais, v.g. o art. 19 da Declaração dos Direitos Humanos de 1948, aprovada pela ONU; itens 1 e 2 do Convênio Europeu para a proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais, aprovado em Roma no ano de 1950; e, mais recentemente, na Convenção Americana de Direitos Humanos - Pacto San de José da Costa Rica.

    Vale destacar, por ser relevante, que a liberdade de expressão compreende a faculdade de livre expressão das idéias, pensamentos e opiniões, sendo garantida na atual a CF/88 no art. 5, incs. IV (que prega ser livre a manifestação do pensamento, vedado o anonimato) e IX (que afirma ser livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença).

    Ora, a realização de passeatas são sempre coordenadas por setores intelectuais e formadores de opinião, não estando tais atos livres de pessoas que cometam crimes e/ou  desordens diversas , situação que impõe , inquestionavelmente, a pronta atuação policial , sempre se valendo dos meios necessários  a repelir o ato e tal possibilidade e risco encontram-se  presentes em qualquer espécie de passeata e seja qual for o tema , até mesmo numa redução de passagens de coletivos.

    A esses dois dispositivos constitucionais poder-se, ainda, somar-se o art. 5°, inc. XIV (que assegura a todos o acesso à informação e resguardo do sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional) e o art. 220, que assegura que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a. informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto na própria Constituição.

    Contudo, não se pode olvidar que o efetivo exercício da democracia não se traduz pura e simplesmente na liberdade de expressão de forma desmedida, sem um controle mínimo pelo Estado, pois, é curial que a liberdade de expressão - a despeito de ser uma marca fundamental dos regimes democráticos, e de ser, no Brasil, uma garantia constitucional - não é absoluta, não podendo ser usada, por isso mesmo, para justificar a violência, a subversão e o cometimento de crimes.

    Na verdade, no sistema constitucional em vigor não existe direito absoluto, pois os direitos ou estão limitados por outros direitos ou estão limitados por valores coletivos da sociedade igualmente amparados pela Constituição, i.é. a liberdade de expressão não é absoluto e sofre limitações, pois deve se compatibilizar com os direitos fundamentais dos cidadãos, bem como, ainda, com os outros bens constitucionalmente protegidos, tais como: moralidade pública, saúde pública, segurança pública, integridade territorial, etc.

    No entanto, é de clareza hialina que ao pretender restringir a liberdade de expressão o Poder Público terá que justificar a necessidade da intervenção. A restrição à liberdade de expressão deverá observar a máxima da proporcionalidade, de forma que resulte intacto o núcleo essencial da liberdade de expressão.

    O direito de associação e de reunião ligam-se estreitamente  à liberdade de expressão  e ao sistema democrático, sendo livre em tal regime  a opinião pública , sendo esta fundamental  para o controle do exercício do poder , assegurando-se  aos cidadãos  ingressarem na vida pública  e interferirem ativamente  nas deliberações  políticas , exercendo pressão  nos três poderes  e assim a permanência ou não  de determinadas situações. A liberdade de reunião  pode ser vista  como “instrumento da livre manifestação  de pensamento , aí incluído o direito de  protestar” conforme assertiva do Ministro  José Celso De Mello Filho  na obra  Direito Constitucional de Reunião.

                            O direito de reunir-se  é a representação do direito à liberdade de expressão exercido de forma coletiva , e juntamente com o direito  de voto forma o conjunto de bases estruturais da democracia. Assim diante do que dispõe o art. 5º. , XVI  da Constituição Federal  verificando-se  a necessidade de dois bens jurídicos serem sopesados , a existência de prática criminosa seja ela qual for e a liberdade de expressão e reunir-se para defender idéias, debater , modificar algo.

O Poder Judiciário, no que tange a este tema tem se espelhado na experiência da Suprema Corte Americana que, em grande parte, é seguida por outros tribunais. No caso de colisão entre a liberdade de expressão e os direitos da privacidade, a Suprema Corte americana tem adotado o critério da opção preferencial por essa liberdade, em razão da valoração daquela liberdade como instituição importante para a democracia pluralista e aberta, muito embora nos deslindes dos casos concretos a Suprema Corte americana promova o que denomina de balancing of interest, separando o público do privado e tendo em mente que a liberdade de expressão tem a finalidade de propiciar o debate público.

    Em tais termos, desponta claro que, conquanto a Constituição Federal em vigor proíba qualquer forma de censura, o cidadão e mais especificamente os veículos de comunicação, no exercício da liberdade de expressão, não devem olvidar os direitos dos outros cidadãos ou ainda os direitos da coletividade, sob pena de incorrerem em abuso.

4. OS DELITOS DE APOLOGIA E INCITAÇÃO AO CRIME (ARTS. 286 E 287 DO CÓDIGO PENAL BRASILEIRO)

    O delito previsto no art. 286 incrimina a conduta de incitar, induzir, instigar, provocar, estimular à prática de qualquer crime, quer criando a idéia do ilícito, quer reforçando propósito já existente, conforme se extrai do comentário de Mirabete ao citado artigo, e sua obra Código Penal Interpretado, 2ª ed, Atlas, 2001, p. 1749.

    Por seu turno, o crime capitulado no art. 287 (apologia de crime ou criminoso), requer que o agente faça a defesa ou enalteça o cometimento de determinada conduta típica, pois, segundo o magistério de Mirabete, "fazer apologia, núcleo do tipo, é elogiar, louvar, enaltecer, gabar, exaltar, aprovar, defender. O agente elogia o crime, como fato, ou o criminoso, seu autor" (ob. cit. p. 1751).

    Com efeito, outra não é a lição de Bento de Faria (Código Penal Brasileiro Comentado, 7/79, 1959), para quem “apologia é a manifestação do pensamento consistente no elogio de um fato criminoso ou do seu autor, feita publicamente para aprovar, louvar ou exaltar, o crime ou o seu praticante, ou ambos".

    Na mesma esteira citamos o inesquecível mestre Nelson Hungria, para quem “Apologia é a exaltação sugestiva, o elogio caloroso, o louvor entusiástico.

    Para Mirabete, a diferença entre o delito do art. 286 do C.P.B. (incitação) e o delito do art. 287 do mesmo Estatuto consiste no fato de que no primeiro se exorta ou se aconselha indissimuladamente, enquanto que no segundo se justifica se apóia, se exalta, se aplaude, tornando, por isso mesmo, implícita a instigação.

    Para o doutrinador “... fazer apologia é elogiar, louvar, enaltecer, gabar, exaltar, aprovar, defender. O agente elogia o crime, como fato, o criminoso, como seu autor. Não constitui apologia criminosa o ato de descrever o fato, de tentar justificá-lo ou de ressaltar qualidades reais ou imaginárias do criminoso, desde que não impliquem o elogio pelo crime praticado.”.

    Qualquer  outro valor  abrigado  pela Constituição  pode entrar  em conflito  com essa liberdade , reclamando  sopesamento , para que , atendendo  ao critério  da proporcionalidade , descubra-se , em cada caso qual o princípio que deverá prevalecer.

    Assim, é óbvio que a liberdade de expressão não se apresentaria  de forma absoluta  podendo sofrer recuo  quando o seu conteúdo puser em risco  uma educação democrática , livre de ódios  preconceituosos  e fundada  no superior  que estimule a violência  e exponha a juventude a exploração a toda sorte , inclusive a comercial, tendendo assim a ceder prima facie  prioritário  da proteção da infância e da adolescência, por exemplo, ou seja o princípio da proporcionalidade deverá ser intensamente considerado.

    Não verificamos prontamente tal situação na questão ora aventada, pois o que temos em mãos é uma patê da população que é a favor da descriminalização da maconha tentando modificar a legislação neste sentido, ou seja, tanto quanto outros temas polêmicos como armas, abortos e outros

    Poderia se dizer que as drogas atraem o tráfico e assim o crime organizado, mas o crime organizado estar ou não por trás de uma marcha como esta , e que , já mobiliza a população em debates , fóruns e  a imprensa sobre a questão é uma conjectura , cujos indícios não existem no momento para que coloquemos em risco a liberdade de expressão, princípio constitucional basilar  do qual o Ministério Público é garantidor. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Assentados esses conceitos e informações acima, cabe, agora, analisar o caso concreto em si mesmo, estabelecendo um paralelo com a garantia constitucional da liberdade de expressão e com as condutas típicas descritas nos arts. 286 e 287 do Código penal Brasileiro e ainda o que dispõe a lei  11.343/06, para, ao final, se concluir pela necessidade/cabimento da adoção de medida judicial para coibir a realização da chamada  “marcha da maconha”, a ocorrer no dia 4 de maio de 2008.

    Pois bem, inicialmente, cabe destacar que tem sido um trabalho árduo se estabelecer o real limite da liberdade de expressão, mormente no Brasil onde perduraram anos de regime de censura, provocando, desta forma, verdadeira ojeriza a qualquer tipo de atitude nesse sentido.

    Afinal, a sociedade brasileira ainda não esqueceu os inúmeros atos abusivos de censura à letra de músicas em festivais, a livros didáticos e a filmes que não enaltecessem e/ou fizessem alguma crítica, ainda que velada, ao regime autoritário então em vigor, tudo sob o falso manto de preservação da soberania nacional e da defesa da família e dos bons costumes.

    Noutra banda, o tema drogas, principalmente “maconha”, e descriminalização de seu consumo tem sido objeto polêmico nos meios de comunicação e a existência de programas televisivos , reportagens diversas  neste sentido  com pessoas de diversas camadas sociais pronunciando-se contra ou a favor induz a prática dos crimes em questão.

    Contudo, considerando o conteúdo extraído do site “www.marchadamaconha.org.” na rede mundial de computadores, onde se veicula a realização da passeata em questão em todo o mundo, iniciada por ONG americana que atua em diversos segmentos há 30 anos e certamente com participantes a favor da descriminalização da maconha poderia  se conclui que ali  não se faz apologia e/ou incitação ao crime de consumo de droga ou ao tráfico, posto que , naquele endereço virtual se verifica informações diversas sobre o entorpecente “ maconha” , sejam posições positivas , sejam negativas a respeito , inclusive, da própria passeata, incluindo-se informativos sobre diversas ações intentadas  solicitando a sua proibição e decisões favoráveis e desfavoráveis , além  de diversos debates e opiniões de quem ali acesse, ou seja, de fato, poderá constar em algum link que não seja diretamente ligado à organização da marcha ou em alguma opinião  seja de quem for e que não poderá ser da responsabilidade dos organizadores, pois a quem quer que acesse a opinião a respeito poderá ser dada , sem que a pessoa tenha ou não ligação com a ong, com os organizadores no Brasil cuja identificação consta do  site e em relação a algum organizador deste  ou da tal marcha.

    Ora, vale ressaltar parlamentares, governadores, ex-presidentes , homens de conhecimento público  há muito defendem a descriminalização do uso da maconha, havendo, ainda, outros que defendem a utilização da maconha para fins terapêuticos e na confecção de vestuários. Estariam essas pessoas fazendo apologia ao uso dessa substância proibida? Penso que não, até porque não se tem notícia de que alguma providência tenha sido tomada, embora algumas dessas pessoas tenham a chamada imunidade parlamentar.

    Ora, Para o Direito Penal, o crime é um fato típico, antijurídico e culpável. No caso concreto, é de se registrar, não se encontram presentes, ab initio, os elementos configuradores de justa causa a amparar o ajuizamento de medida jurídica visando obstar a realização do ato sob exame, considerando não concorrer na espécie, até a presente data, elementos ensejadores de eventual persecução penal, pois não há, na hipótese, sequer a simples fumaça de um injusto típico.

    Em tais termos, e em total observância das balizas constitucionais que exige do órgão acusador, na seara penal, imputações criminosas lastreadas no chamado fumus comissi delicti, ausentes na espécie, entende este Órgão do Ministério Público que o deslinde do caso concreto em apreciação recomenda, com assento em pilastras constitucionais, que não se adote medida jurídica visando coibir um ato legítimo e pacífico, nada impedindo que posteriormente, se após a realização do ato se constatar que houve abusos e que esses excessos configuram conduta típica e culpável, o Ministério Público, enquanto titular da ação penal adote as providências necessárias e legais. Agora, no estágio atual me parece não haver crime a ser reprimido.

    Sequer a ausência de alguma comunicação aos Órgãos competentes quanto à realização da passeata poderá ser motivo para uma proibição, pois a questão há de ser resolvida pela via administrativa , sendo importante ressaltar que a realização não necessita de autorização, sendo conveniente a comunicação para facilitar a atuação da polícia e outros órgãos, inclusive de trânsito, visando assim minorar os riscos de desordem , que , aliás , sempre existirão, seja qual for a passeata ou o seu objeto, bem como a coincidência com outra manifestação pública.

    O que dispomos neste momento é uma  possibilidade de alguma desordem , ou até mesmo da existência de práticas ilícitas, possibilidade que existe diante de qualquer aglomerado de pessoas , notadamente se reunidas visando um objetivo comum, e um objetivo tão polêmico . Ora, tais atos  indesejáveis já se deram até mesmo em passeatas cujo objetivo  não ensejava qualquer impasse maior , e tal possibilidade e conjectura não poderá se prestar a cercear uma liberdade garantida constitucionalmente.

    O que observamos é um site com debates diversos , com a exposição diversa de opinião sobre o tema e que até o momento expôs  posições diferentes sobre a questão, e que neste momento não cabe ser apreciada de forma autoritária  pela Instituição que deve  garantir a liberdade de expressão acima de meras conjecturas e possibilidades que caberá a polícia evitar ou minimizar.




6. CONCLUSÕES

    Diante do exposto, e restando suficientemente demonstrada a total ausência de elementos que autorizem a adoção de medida jurídica para obstar a realização do multicitado ato público conhecido como “marcha da maconha”, este Órgão do Ministério Público entende por bem não intentar qualquer ação neste sentido, exceto a orientação pelo monitoramento ostensivo da polícia no local  a evitar atos ilícitos e a perturbação da ordem.


Recife (PE),                                       de          2008
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A K M C F
Promotora de Justiça

sábado, 16 de abril de 2011

Relaxem Machos Brancos e Heteros!



De cara esclareço que saboreio os suculentos escritos, na maioria das vezes,  ácidos, de Luiz Felipe Pondé , até porque gosto de acidez , mesmo nos melhores pratos, mas ao ler e reler "Restos à Janela". http://www.paulopes.com.br/2010/09/mergulhadas-em-exigencias-mulheres.html  ,de fato, a digestão não foi das mais fáceis.
Acostumada aos pratos feitos por Pondé, dignos, certamente, de um banquete, se não fosse, por vezes, a falta de algum ingrediente em alguns deles, que não consigo alcançar, talvez pela acidez desmedida, sempre, até mesmo quando procura arriscar algo terno, os saboreei e poucos procurei simplesmente  digerir, sim, alguns o meu estômago ameaçou rejeitar e  procurei entender a curiosa arte da cozinha, digo, da escrita de Pondé.
Garanto que mesmo o sabor mais azedo  fora digerido , nada  regurgitei ou vomitei, procurei sentir cada ingrediente, por mais ácido que fosse, até , por vezes, os desnecessariamente azedos , e a única conclusão a que cheguei foi  a de um grande jogo. Um jogo dos sabores.Ele pretende, e sempre, ser o advogado do diabo, que bom, até ele tem o tal direito a defesa.  

As possibilidades são muitas, mas ele sempre rema contra a maré, mesmo que não necessite tamanho esforço, na verdade, mesmo que  esteja remando a favor da maré de todas as luas e todos os tempos,independentemente, de qual seja a natureza de sua embarcação e qual o seu destino.
 Pretendeu endemonizar a tudo e a todos, principalmente as “ vermelhinhas” , mesmo que nem tão vermelhas assim ,e as feministas são trituradas , como se existissem apenas para liquidar os machos brancos heteros, e assim ele faz questão de estereotipá-las
Ao tentar saborear mais este texto, com uma linda imagem de Brigitte Bardot, o azedume me roubou a atenção e digeri-lo não foi fácil , na verdade, aquele prato não me desceu bem, o que por pouco não me fez cuspir fora, pensei em alguns dos trechos: “Temo que apenas os machos brancos heterossexuais não tenham direitos” disse ele seca e azedamente.
Relaxa Pondé ! os Machos Brancos e Heteros, que alguns, na sua tolice, imaginam ser redundância, tiveram todos os direitos  do mundo, desde que o mundo é mundo, e apesar das tais feministas, e outras que ousaram, felizmente, a enxergar a luz em suas prisões com ou sem muros, hoje ainda possuem  a primazia dos direitos , e amanhã, bem, amanhã creio que continuarão  possuindo embora espere,  que  os direitos deles não pretendam excluir os de quem quer que seja e que saibam conviver com  as dirferenças de cores e sabores, em nome da utopia da igualdade, boa convivência  e dos bons jantares, nem que seja pelo “politicamente correto” que Pondé , indiscriminadamente, tanto rejeita.
É Ponde , a tal igualdade , que mesmo sendo ainda uma enorme “balela” e ensejando inúmeros blábláblás, deve ser buscada , como aquele pote de ouro na base do arco íris http://sotaodaines.chrome.pt/sotao/histor89_l.html  , mesmo que não seja alcançado, a sua busca nos engrandece , nos presenteia , é o prazer da caminhada  que nos alenta e as enormes descobertas pelo caminho, e a certeza de que um dia não apenas o encontraremos , como sua fonte será inesgotável, mesmo que o inferno esteja logo ali.
De fato, você, Macho Branco e Hetero que sempre pôde escolher o seu rumo, já foi presenteado com um ponte de ouro ao nascer e não teve que buscar através de um caminho árduo, embora repleto de surpresas e descobertas, o pote  escondido, ao menos,não este.
 Apenas teve que lutar contra outros Machos Brancos e Heteros, que certamente na ganância do ter mais, não se contentaram com o seu próprio pote e pretenderam ter também os de outros tantos.
As mulheres, sejam brancas, negras, homo, hetero ou bi , ainda hoje , e certamente amanhã, ainda, estarão caminhando em busca do seu pote , sem pretender retirar nenhum ouro dos tais machos brancos e heteros , querem apenas o  que é delas , nada mais e nada menos do que isto.
Obviamente, nesta caminhada em busca de cada arco íris e do pote de ouro,  muitos ouros de tolo, pois nem tudo que reluz é de fato ouro, nos serão dados , mas o prazer da caminhada, e de todas as descobertas, o prazer de poder escolher qual caminho tomar, mesmo que nos deparemos com um abismo , já será o nosso ganho.
Mesmo que nós mulheres nesta caminhada , onde há fadas e monstros , lagos e areias movediças , mergulhemos num inferno, em sendo nossa escolha , já estaremos satisfeitas, pois a cada um, seja homem ou mulher, branco ou negro , hetero ou homossexual, a maior liberdade e o maior troféu é a possibilidade de escolha do  próprio caminho, do  próprio destino.
Outra menção do texto me chamara a atenção, embora tudo o que Pondé escreve seja digno de toda a atenção: “Mas, em se tratando de mulher, é antes de tudo a inveja pela beleza da outra que move o mundo a sua volta” hummm, embora acredite que há controvérsias, até pelo bem do meu gênero , penso que os homens, sejam machos brancos e heteros , ou não, também nutrem suas obsessões , no caso deles, praticamente, tudo é uma questão fálica , para as mulheres nada mais primário, para eles, uma questão de vida ou morte e assim haja divãs de analistas.
É Pondé parece que os seres humanos ,sejam mulheres ou homens, sejam ,de fato ,humanos ou desumanos, todos, indistintamente, tem suas manias de perseguição,tem suas buscas e desejos, tem jeitos e trejeitos.
Há mulheres "peludas" , há homens do mesmo jeito, há mulheres e homens de todo o jeito, e a quem goste de qualquer jeito.loucos ou  normais ,gosto ou desgosto, apenas sei que o mundo não é o meu reflexo no espelho.As mulheres não pretendem tomar o prestobarba de quem quer que seja,apenas querem o direito de escolher o delas, se for o caso. Afinal" A maior liberdade é escolher a sua própria prisão"



domingo, 13 de fevereiro de 2011

As minhas palavras, por elas mesmas…




Desejaria que minhas palavras fossem bailarinas, não a primeira bailarina, mas qualquer uma , solta , sem amarras, a dar piruetas por ai .

Queria,até mesmo,que as minhas palavras-bailarina ,por vezes, tropeçassem e a sincronia fosse imperfeita,pois há beleza na imperfeição, no inacabado, no que pode ser aperfeiçoado e até mesmo modificado.

Queria que se minhas palavras um dia fossem bailarinas também tivessem seu apogeu numa harmonia perfeita, movimentando-se em todos os ritmos, com  jogo de cintura a se adequar a cada nova situação mas sempre dançando sua própria dança , sua própria coreografia.

Mas, minhas palavras ainda não são bailarinas, de primeira ou de segunda, mas se atrevem à vez por outra dar alguns pulinhos por ai.

São palavras atrevidas, estas minhas, falam, mas sabem,mesmo assim às vezes, ouvir o encantamento dos sons e saltitam livres.

Minhas palavras, por vezes, pensam por si próprias e assim movimentam-se e insistem em não atender as minhas orientações,minhas súplicas, meus gritos, sussurros e ao meu silencio ensurdecedor.

Minhas palavras são quase sempre rebeldes, e agrupam-se contra tudo e todos, até contra mim mesma, me colocando em maus lençóis.

Nem sempre as palavras me deixam, as vezes são expulsas por mim, outras abandonam-me , se perdem e não as encontro.

Por vezes gostam as minhas palavras de serem vistas no seu real sentido ,mostrando suas carinhas, cada ruguinha, cada nuance de seus sentimentos, mas , em geral, preferem estar encobertas sob um véu, optam por não se desnudar, cheias de pudores, rancores,valendo-se, na verdade, de uma fantasia , uma máscara de carnaval.

As minhas palavras, que até penso que muitas vezes a mim não pertencem, adoram caminhar aos saltinhos, divagando, indagando , sem respostas.

São uma caixinha de surpresas ,na verdade,muitas vezesuma caixa de Pandora , me chocam, me encantam.

As palavras que me deixam, as que eu expulso,as que permanecem engasgando-me e as que guardo em meu baú empoeirado teriam vida própria .

As "minhas" palavras se encontram ocasional ou deliberadamente, dançam, no compasso ou não, pisam no pé dos seus parceiros, também brigam , escancaram ou se escondem.

Mas em cada encontro, seja como for, minhas palavras se relacionam e em cada frase, uma descoberta, boa ou má ,mas sempre reveladora.

As revelações destes encontros de palavras,nuas e cruas, fantasiadas, por vezes, me surpreendem,mas não costumam me envergonhar,me intimidar.

São palavras de todo tipo, de todo jeito,sem preconceito, corajosas,mas também que se acovardam,recuando num estado de pura sobrevivência.

As palavras são assim , como a gente, como o mundo, repletas de dicotomias, de contradições, vivas, sobrevivendo, sorrindo e chorando.

As frases, os argumentos, sempre pretendem explicar o sentido das palavras , e de "serem mais importantes do que elas".

As palavras, as mais genuínas, não nos presenteiam com certezas, com respostas e definições, mas sim com indagações e reflexões.

Depois de ditas, escritas, sussurradas ,mesmo que o tempo e o vento as levem ,elas marcam seu território,para mim,irremediavelmente.

Não apenas as ações e omissões marcam positiva ou negativamente, as palavras tem força própria, são elementos transformadores.

O que é dito, provoca reações , e por mais " tolas" que possam parecer as palavras , nunca me são indiferentes.

São pontes, ligam e religam, também abismos necessários , mas, apesar disto, devem ser ditas , de qualquer jeito , com qualquer trejeito, com ou sem traquejo.

São palavras irônicas. lúdicas, mostrando o feio e o sujo, de um jeito diferente, um jeito faceiro, vendo o luxo no lixo.

Apesar das fragilidades e vulnerabilidades, as palavras são sempre, SEMPRE poderosas e não devemos subestimá-las jamais.

Assim, pretendo tê-las como aliadas , mas se a revolta vier, que modifiquem a mim, modifiquem o mundo.

Minhas palavras não findam em frases que se fecham em pontos finais, após aquela que parece ser a última, temos as reticências, ou seja, tudo está por vir, inacabado, aguardando...










sábado, 8 de janeiro de 2011

Acalentada No Colo Da Noite...Meras Impressões



Gosto das entrelinhas da lua...

Gosto da noite.Gosto de viver no mundo da lua

A noite para mim é um alento , me deito em seu colo, é o meu refúgio

À noite chegou mais uma vez,a abrandar o meu espírito e os fantasmas que surgem com os primeiros raios de sol, os meus fantasmas são diurnos ;

À noite veio mansinha, ela sempre vem, é uma das poucas certezas que tenho, amo a noite e toda a sua capacidade de esconder meus medos...

A noite chega e meus medos se transformam, ficam apenas a espreita, sem o terror da manhã, onde mostram suas caras e me afrontam ;

Como se o dia nos convocasse a lutar e enfrentar, e como se a noite apenas nos convidasse a deitar em seu colo e esquecer,e sonhar,se perder;

E novamente a noite e sua mansidão, suas entrelinhas, seus esconderijos a me acalmar os temores, a me esconder de mim mesma;

Amo a noite, fico respirando-a longa e profundamente, com receio de que as horas se apressem...

Amo tanto a noite e todos os seus subterfúgios que sequer me importo com os possíveis pesadelos, encaro-os como monstros que expurgo;

À noite me proporciona a possibilidade de me esconder mais facilmente de meus demônios, de respirar profundamente . A manhã me oprime...;

Finalmente o brilho da lua que não fere meus olhos, como os raios do sol que me cegam, gosto da noite, definitivamente gosto ;

Finalmente a noite, onde os meus demônios se escondem , mansos, olhando a lua, mergulhando nela...

Na noite, sem sono, mas viva, acordada, como numa manhã...Mas liberta;

Hoje estava inquieta, talvez doente, sequer senti a noite invadindo ,me tomando , me acalmando ,me retirando das garras do dia,libertando-me;

A noite todos os gatos são pardos.O preconceito não combina com a noite e sua permissividade;

Temos aqueles pontinhos brilhantes, as estrelas, em função da doce e incerta escuridão da noite;

Somos ingratos com a noite, afinal trabalhamos durante o dia, e, em geral, os melhores prazeres temos a noite e na sua luz discreta e que esconde indiscrições, é como um véu sobre as vergonhas;

Amo tanto a noite que desejaria que ela fosse tão longa que não encontrasse o dia, mas penso que talvez ficasse entediada com uma cor só, com os mesmos tons, o prata, o cinza, o negro, o resto são pontos esparsos, personagens na tela da noite;

À noite sequer o ladrão de corações são percebidos;

Admiro Sêneca e suas impressões , mas não concordo com a de que a noite traz nossos problemas à tona, ao invés de bani-los;

Felizmente chegou a acalmar meu espírito, amo a noite, ela é sempre lúdica;

Na noite nada é definido, nada é exatamente o que vemos, é quase um encantamento;

Amo a imensidão da noite, o seu brilho discreto, o cheiro de mistério , a mera possibilidade dos sonhos, mesmo diante dos riscos do pesadelo;

Mas o que fazer , devo acordar e .... viver ou , no mais das vezes, sobreviver, é a vida pulsando, com receio , medo, sofrimento , mas pulsando...

Na noite nada é definido, nada é exatamente o que vemos e todos os gatos são pardos , é quase um encantamento;

Bom dia! mas prefiro o boa noite !, prefiro a claridade dissimulada da lua,não gosto de obviedades, gosto do véu, o sol é por demais óbvio...

E veio os raios de sol,toda a sua óbvia claridade a ferir meus olhos e me acordar dos sonhos ,um obrigatório despertar das ilusões da noite;

Prefiro a noite que de tão fria me permite entrar em minhas cobertas e me esquecer e me encontrar apenas em braços dele e voltar a me perder;

Prefiro a noite que não me deixa ver, não me deixa sequer olhar no espelho claramente, que me permite escapar de tudo, de todos, até de mim mesma;

Prefiro a noite que de tão negra posso me esconder dos meus demônios, posso esconder minhas imperfeições, me enganar e viver tolamente...

Prefiro a noite onde posso encarar a lua e me perder nela, e não o sol, que me encandeia e me fere os olhos, me acorda e me faz ver...,

Prefiro a noite ,onde apesar da insônia,num dado momento me entrego aos devaneios só possíveis em sonhos e lá , ao menos,,às vezes,sou feliz;

Prefiro a noite, onde os meus medos são fantasmas que me olham de soslaio e não me enfrentam...

"A noite expõe a nossa inquietação." (Sêneca) . Quanto a mim esconde meus medos;

“Não me digam que a noite é obscura e põe medo, porque disso eu já sei e me acende. O medo é excitante, inquietante”

“ O que mais amo na noite é sua permissividade e tolerância a tudo. Geralmente, é nela que retiramos as máscaras”

“ No burburinho da noite os limites se ampliam, as vezes além do esperado”

"A noite todas as coisas têm uma só cor"Ovídio.

“ De noite as imperfeições não aparecem, e desculpa-se todo defeito." Ovídio”;

"A noite é a metade da vida… e a metade melhor." (Goethe) Eu Concordo inteiramente;

"O que a noite trará é incerto." (Tito Lívio) Adoro surpresas;
"Há muito sinto os raios de sol como fogo a queimar meus olhos, como punhais a penetrar meu peito, o amanhecer tem sido perverso";

 "de um modo geral observei que de dia sempre se perde um pouco a fé" , disse Dostoiévski, e tb por isto amo a noite.
 Faz tempo que não sinto o cálido amanhecer em meu rosto...



quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DESEJO PARA 2011, NÃO, DESEJO PARA TODO O SEMPRE:


Que os sonhos de uma vida inteira se não realizados, sejam acalentados;

Que os fins não justifiquem os meios;

Que se a dor for inevitável, haja morfina na mesma proporção;

Que a dor, se inevitável, nos deixe mais fortes e resistentes;

"Que o gesto recupere o seu sentido”;

"Que a palavra recupere o seu tom insubstituível";

"Que o silêncio seja ouvido, como uma boa música”;

"Que o cenário não se limite ao decorativo", mas que contribua para o entendimento de um contexto

Que possamos sentir a noite, seus ventos mansos e sua luz sob um véu ,mesmo sem paixão ;

Que não sejamos fatais e não acreditemos na fatalidade a justificar os pesares;

Que tenhamos coragem de nos conhecer e que  o temor e o choque com nossos monstros não nos impeça;

Que o medo nos socorra diante de um abismo e nos faça recuar, mas se optarmos por pular, que possamos nos refazer da queda , mais fortes;

Que o passar do tempo pingue gota a gota e nos permita senti-lo em toda a sua inteireza, sem desperdício;

Que possamos olhar, vez por outra para trás para não esquecermos de onde viemos;

Que ao olhar o passado, a nossa história nos dê pistas para onde vamos;

Que não olhemos através, que possamos olhar e enxergar e ainda assim dizer: vale a pena estar aqui!;

Que possamos caminhar por bosques, mesmo que o caminho seja mais longo do que aquele asfalto sem curvas sinuosas, mas sem vida a ser contemplada;

Que tenhamos preparo para a vida cotidiana e sua rotina massacrante e que esta rotina assim não seja;

Que tenhamos coragem de pensar e repensar, mas que vez por outra possamos não pensar e esquecer;

Que nossos dias não sejam "dias de sanatório" e a ansiedade possa nos dar trégua;

Que o desespero não venha e se vier que possamos descrevê-lo, escrevendo, e se assim for, que os outros possam ler;

Que sejamos nós, e a imagem refletida no espelho nos agrade e que na solidão nosso eu possa nos fazer companhia;

Que não tenhamos solidão, principalmente se estivermos com nós mesmos;

Que se a solidão bater a porta de nossa alma, ou alcançar entrar fortuitamente, não nos amedronte a ponto de não nos suportarmos;

Que a opressão dos outros não nos imponha estarmos apenas com nós mesmos, mas que a nossa procura seja espontânea, uma necessidade nossa;

Que não nos percamos de nós mesmos, e se isto acontecer possamos nos achar a beira de um rio, olhando para a nossa imagem refletida;

Que a nossa pior mania seja a do silêncio;

Que ao olharmos pela janela, não tenhamos medo do que vamos ver e que a imagem seja como a mansidão da noite e não choque nossos olhos,

Mas se a imagem vista da janela nos chocar, fazendo-nos simplesmente quebrar, que possamos juntar os cacos do momento e que nem por isto nossa existência esteja despedaçada ;

Que possamos falar e ouvir, mas que não tenhamos tanta necessidade das palavras;

Que não sejamos uma estátua, apenas vista e às vezes admirada , mas , em geral, não compreendida;

Que o mundo interior e exterior não nos amedronte a ponto de não desejarmos conhecê-lo;

Que todo o conhecimento valha a pena,

Que não pretendamos fazer de nós mesmos uma pessoa perfeita, mas que até nossos defeitos nos complete , forme nossa identidade e nos orgulhe;

Que possamos ter liberdade de escolha e que tenhamos força para responder por todas elas;

Que ser livre não seja a nossa pior prisão;

Que a solidão almejada não nos seja insuportável;

Que não pretendamos ser únicos na multidão, mas que possamos nos reconhecer em alguém;

Que possamos ver e ouvir a diferença com tolerância e mais do que isto, nos permitindo rever conceitos e sermos também diferentes;

Que tenhamos mais certezas do que dúvidas, mas se a certeza for dolorosa, que possamos ao menos duvidar;

Que a nossa dúvida não se transforme em desconfiança com tudo e todos a olharmos o mundo com ceticismo, nos transformando em opositores;

Que possamos levar qualquer tipo de vida, e levando, possamos conservar nossa integridade, mas que possamos mudar;

Que possamos evitar o caos, mas se ele vier, que possamos enxergar vida pulsando nele e possibilidade de sairmos revigorados;

Que não esperemos a vida passar e a morte chegar;

Que a morte chegando, que ela nos surpreenda, para que não soframos inutilmente, pois o único sofrimento inútil é o que se dá pela morte ;

Que vez por outra possamos soltar o bicho que existe em nós, e que possamos sempre enjaulá-lo;

Que não empacotemos nossos sentimentos;

Que tenhamos nossa verdade, mas que respeitemos a verdade alheia, e que as verdades possam ser sopesadas, e que nenhuma seja absoluta e inexorável;

Que possamos enxergar caráter em tudo;

Que possamos ao menos uma vez ser crédulos e ingênuos como as crianças;

Que sejamos saudáveis, mas se a nosso corpo adoecer, que a nossa alma não fique doente e se ficar, que possamos curá-la;

Que não pretendamos carregar as dores do mundo;

Que possamos ser sensíveis às dores do mundo e solidários;

Que nossas dores encontrem sensibilidade e solidariedade de pelo menos alguém;

Que possamos nos satisfazer com o mínimo, mas que o máximo bata a nossa porta e possa entrar;

Que não precisemos da Justiça dos homens, muitas vezes falha, cega , esclerosada , desonesta e descomprometida;

Que se precisarmos da Justiça dos homens, que possamos nos deparar ,não só com a Lei,mas com o JUSTO, o honesto, o comprometido com a busca;

Que não nos contentemos com as migalhas permitidas pela Lei, mas possamos buscar o que, de fato, nos cabe, através do senso de Justiça;

Que o direito, seja de fato DIREITO, e não sejamos manipulados por ele, mas agentes transformadores;

Que ao menos um momento possamos crer ser possível subverter a ordem da vida;

Que possamos ousar ;

Que nossas necessidades básicas sejam satisfeitas, e em não sendo que possamos buscá-las, possamos falar, gritar, exigir, e alcançar;

Que em tendo filhos possamos vê-los nascer, crescer, comer, e dormir com dignidade e que jamais estejamos vivos para vê-los morrer e sofrer, mesmo que o inevitável;

Que a gente não tenha "só comida, mas comida , diversão e arte...";

Que possamos ir , mas que tenhamos para onde voltar;

Que sejamos humanos, mas crendo na imortalidade;

Que tenhamos paz e com ela o sossego merecido do guerreiro;

Desejo enfim, o impossível, o inesperado, a vida e não apenas a sobrevida;

Desejo Tudo .



















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domingo, 12 de dezembro de 2010

POLITICAMENTE CORRETO É O CACETE-O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA-Luiz Antonio Simas


Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?
É Villa Lobos, cacete!
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda de dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.
Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo Total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé-na-cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do Pé Junto.