sábado, 16 de abril de 2011

Relaxem Machos Brancos e Heteros!



De cara esclareço que saboreio os suculentos escritos, na maioria das vezes,  ácidos, de Luiz Felipe Pondé , até porque gosto de acidez , mesmo nos melhores pratos, mas ao ler e reler "Restos à Janela". http://www.paulopes.com.br/2010/09/mergulhadas-em-exigencias-mulheres.html  ,de fato, a digestão não foi das mais fáceis.
Acostumada aos pratos feitos por Pondé, dignos, certamente, de um banquete, se não fosse, por vezes, a falta de algum ingrediente em alguns deles, que não consigo alcançar, talvez pela acidez desmedida, sempre, até mesmo quando procura arriscar algo terno, os saboreei e poucos procurei simplesmente  digerir, sim, alguns o meu estômago ameaçou rejeitar e  procurei entender a curiosa arte da cozinha, digo, da escrita de Pondé.
Garanto que mesmo o sabor mais azedo  fora digerido , nada  regurgitei ou vomitei, procurei sentir cada ingrediente, por mais ácido que fosse, até , por vezes, os desnecessariamente azedos , e a única conclusão a que cheguei foi  a de um grande jogo. Um jogo dos sabores.Ele pretende, e sempre, ser o advogado do diabo, que bom, até ele tem o tal direito a defesa.  

As possibilidades são muitas, mas ele sempre rema contra a maré, mesmo que não necessite tamanho esforço, na verdade, mesmo que  esteja remando a favor da maré de todas as luas e todos os tempos,independentemente, de qual seja a natureza de sua embarcação e qual o seu destino.
 Pretendeu endemonizar a tudo e a todos, principalmente as “ vermelhinhas” , mesmo que nem tão vermelhas assim ,e as feministas são trituradas , como se existissem apenas para liquidar os machos brancos heteros, e assim ele faz questão de estereotipá-las
Ao tentar saborear mais este texto, com uma linda imagem de Brigitte Bardot, o azedume me roubou a atenção e digeri-lo não foi fácil , na verdade, aquele prato não me desceu bem, o que por pouco não me fez cuspir fora, pensei em alguns dos trechos: “Temo que apenas os machos brancos heterossexuais não tenham direitos” disse ele seca e azedamente.
Relaxa Pondé ! os Machos Brancos e Heteros, que alguns, na sua tolice, imaginam ser redundância, tiveram todos os direitos  do mundo, desde que o mundo é mundo, e apesar das tais feministas, e outras que ousaram, felizmente, a enxergar a luz em suas prisões com ou sem muros, hoje ainda possuem  a primazia dos direitos , e amanhã, bem, amanhã creio que continuarão  possuindo embora espere,  que  os direitos deles não pretendam excluir os de quem quer que seja e que saibam conviver com  as dirferenças de cores e sabores, em nome da utopia da igualdade, boa convivência  e dos bons jantares, nem que seja pelo “politicamente correto” que Pondé , indiscriminadamente, tanto rejeita.
É Ponde , a tal igualdade , que mesmo sendo ainda uma enorme “balela” e ensejando inúmeros blábláblás, deve ser buscada , como aquele pote de ouro na base do arco íris http://sotaodaines.chrome.pt/sotao/histor89_l.html  , mesmo que não seja alcançado, a sua busca nos engrandece , nos presenteia , é o prazer da caminhada  que nos alenta e as enormes descobertas pelo caminho, e a certeza de que um dia não apenas o encontraremos , como sua fonte será inesgotável, mesmo que o inferno esteja logo ali.
De fato, você, Macho Branco e Hetero que sempre pôde escolher o seu rumo, já foi presenteado com um ponte de ouro ao nascer e não teve que buscar através de um caminho árduo, embora repleto de surpresas e descobertas, o pote  escondido, ao menos,não este.
 Apenas teve que lutar contra outros Machos Brancos e Heteros, que certamente na ganância do ter mais, não se contentaram com o seu próprio pote e pretenderam ter também os de outros tantos.
As mulheres, sejam brancas, negras, homo, hetero ou bi , ainda hoje , e certamente amanhã, ainda, estarão caminhando em busca do seu pote , sem pretender retirar nenhum ouro dos tais machos brancos e heteros , querem apenas o  que é delas , nada mais e nada menos do que isto.
Obviamente, nesta caminhada em busca de cada arco íris e do pote de ouro,  muitos ouros de tolo, pois nem tudo que reluz é de fato ouro, nos serão dados , mas o prazer da caminhada, e de todas as descobertas, o prazer de poder escolher qual caminho tomar, mesmo que nos deparemos com um abismo , já será o nosso ganho.
Mesmo que nós mulheres nesta caminhada , onde há fadas e monstros , lagos e areias movediças , mergulhemos num inferno, em sendo nossa escolha , já estaremos satisfeitas, pois a cada um, seja homem ou mulher, branco ou negro , hetero ou homossexual, a maior liberdade e o maior troféu é a possibilidade de escolha do  próprio caminho, do  próprio destino.
Outra menção do texto me chamara a atenção, embora tudo o que Pondé escreve seja digno de toda a atenção: “Mas, em se tratando de mulher, é antes de tudo a inveja pela beleza da outra que move o mundo a sua volta” hummm, embora acredite que há controvérsias, até pelo bem do meu gênero , penso que os homens, sejam machos brancos e heteros , ou não, também nutrem suas obsessões , no caso deles, praticamente, tudo é uma questão fálica , para as mulheres nada mais primário, para eles, uma questão de vida ou morte e assim haja divãs de analistas.
É Pondé parece que os seres humanos ,sejam mulheres ou homens, sejam ,de fato ,humanos ou desumanos, todos, indistintamente, tem suas manias de perseguição,tem suas buscas e desejos, tem jeitos e trejeitos.
Há mulheres "peludas" , há homens do mesmo jeito, há mulheres e homens de todo o jeito, e a quem goste de qualquer jeito.loucos ou  normais ,gosto ou desgosto, apenas sei que o mundo não é o meu reflexo no espelho.As mulheres não pretendem tomar o prestobarba de quem quer que seja,apenas querem o direito de escolher o delas, se for o caso. Afinal" A maior liberdade é escolher a sua própria prisão"



domingo, 13 de fevereiro de 2011

As minhas palavras, por elas mesmas…




Desejaria que minhas palavras fossem bailarinas, não a primeira bailarina, mas qualquer uma , solta , sem amarras, a dar piruetas por ai .

Queria,até mesmo,que as minhas palavras-bailarina ,por vezes, tropeçassem e a sincronia fosse imperfeita,pois há beleza na imperfeição, no inacabado, no que pode ser aperfeiçoado e até mesmo modificado.

Queria que se minhas palavras um dia fossem bailarinas também tivessem seu apogeu numa harmonia perfeita, movimentando-se em todos os ritmos, com  jogo de cintura a se adequar a cada nova situação mas sempre dançando sua própria dança , sua própria coreografia.

Mas, minhas palavras ainda não são bailarinas, de primeira ou de segunda, mas se atrevem à vez por outra dar alguns pulinhos por ai.

São palavras atrevidas, estas minhas, falam, mas sabem,mesmo assim às vezes, ouvir o encantamento dos sons e saltitam livres.

Minhas palavras, por vezes, pensam por si próprias e assim movimentam-se e insistem em não atender as minhas orientações,minhas súplicas, meus gritos, sussurros e ao meu silencio ensurdecedor.

Minhas palavras são quase sempre rebeldes, e agrupam-se contra tudo e todos, até contra mim mesma, me colocando em maus lençóis.

Nem sempre as palavras me deixam, as vezes são expulsas por mim, outras abandonam-me , se perdem e não as encontro.

Por vezes gostam as minhas palavras de serem vistas no seu real sentido ,mostrando suas carinhas, cada ruguinha, cada nuance de seus sentimentos, mas , em geral, preferem estar encobertas sob um véu, optam por não se desnudar, cheias de pudores, rancores,valendo-se, na verdade, de uma fantasia , uma máscara de carnaval.

As minhas palavras, que até penso que muitas vezes a mim não pertencem, adoram caminhar aos saltinhos, divagando, indagando , sem respostas.

São uma caixinha de surpresas ,na verdade,muitas vezesuma caixa de Pandora , me chocam, me encantam.

As palavras que me deixam, as que eu expulso,as que permanecem engasgando-me e as que guardo em meu baú empoeirado teriam vida própria .

As "minhas" palavras se encontram ocasional ou deliberadamente, dançam, no compasso ou não, pisam no pé dos seus parceiros, também brigam , escancaram ou se escondem.

Mas em cada encontro, seja como for, minhas palavras se relacionam e em cada frase, uma descoberta, boa ou má ,mas sempre reveladora.

As revelações destes encontros de palavras,nuas e cruas, fantasiadas, por vezes, me surpreendem,mas não costumam me envergonhar,me intimidar.

São palavras de todo tipo, de todo jeito,sem preconceito, corajosas,mas também que se acovardam,recuando num estado de pura sobrevivência.

As palavras são assim , como a gente, como o mundo, repletas de dicotomias, de contradições, vivas, sobrevivendo, sorrindo e chorando.

As frases, os argumentos, sempre pretendem explicar o sentido das palavras , e de "serem mais importantes do que elas".

As palavras, as mais genuínas, não nos presenteiam com certezas, com respostas e definições, mas sim com indagações e reflexões.

Depois de ditas, escritas, sussurradas ,mesmo que o tempo e o vento as levem ,elas marcam seu território,para mim,irremediavelmente.

Não apenas as ações e omissões marcam positiva ou negativamente, as palavras tem força própria, são elementos transformadores.

O que é dito, provoca reações , e por mais " tolas" que possam parecer as palavras , nunca me são indiferentes.

São pontes, ligam e religam, também abismos necessários , mas, apesar disto, devem ser ditas , de qualquer jeito , com qualquer trejeito, com ou sem traquejo.

São palavras irônicas. lúdicas, mostrando o feio e o sujo, de um jeito diferente, um jeito faceiro, vendo o luxo no lixo.

Apesar das fragilidades e vulnerabilidades, as palavras são sempre, SEMPRE poderosas e não devemos subestimá-las jamais.

Assim, pretendo tê-las como aliadas , mas se a revolta vier, que modifiquem a mim, modifiquem o mundo.

Minhas palavras não findam em frases que se fecham em pontos finais, após aquela que parece ser a última, temos as reticências, ou seja, tudo está por vir, inacabado, aguardando...










sábado, 8 de janeiro de 2011

Acalentada No Colo Da Noite...Meras Impressões



Gosto das entrelinhas da lua...

Gosto da noite.Gosto de viver no mundo da lua

A noite para mim é um alento , me deito em seu colo, é o meu refúgio

À noite chegou mais uma vez,a abrandar o meu espírito e os fantasmas que surgem com os primeiros raios de sol, os meus fantasmas são diurnos ;

À noite veio mansinha, ela sempre vem, é uma das poucas certezas que tenho, amo a noite e toda a sua capacidade de esconder meus medos...

A noite chega e meus medos se transformam, ficam apenas a espreita, sem o terror da manhã, onde mostram suas caras e me afrontam ;

Como se o dia nos convocasse a lutar e enfrentar, e como se a noite apenas nos convidasse a deitar em seu colo e esquecer,e sonhar,se perder;

E novamente a noite e sua mansidão, suas entrelinhas, seus esconderijos a me acalmar os temores, a me esconder de mim mesma;

Amo a noite, fico respirando-a longa e profundamente, com receio de que as horas se apressem...

Amo tanto a noite e todos os seus subterfúgios que sequer me importo com os possíveis pesadelos, encaro-os como monstros que expurgo;

À noite me proporciona a possibilidade de me esconder mais facilmente de meus demônios, de respirar profundamente . A manhã me oprime...;

Finalmente o brilho da lua que não fere meus olhos, como os raios do sol que me cegam, gosto da noite, definitivamente gosto ;

Finalmente a noite, onde os meus demônios se escondem , mansos, olhando a lua, mergulhando nela...

Na noite, sem sono, mas viva, acordada, como numa manhã...Mas liberta;

Hoje estava inquieta, talvez doente, sequer senti a noite invadindo ,me tomando , me acalmando ,me retirando das garras do dia,libertando-me;

A noite todos os gatos são pardos.O preconceito não combina com a noite e sua permissividade;

Temos aqueles pontinhos brilhantes, as estrelas, em função da doce e incerta escuridão da noite;

Somos ingratos com a noite, afinal trabalhamos durante o dia, e, em geral, os melhores prazeres temos a noite e na sua luz discreta e que esconde indiscrições, é como um véu sobre as vergonhas;

Amo tanto a noite que desejaria que ela fosse tão longa que não encontrasse o dia, mas penso que talvez ficasse entediada com uma cor só, com os mesmos tons, o prata, o cinza, o negro, o resto são pontos esparsos, personagens na tela da noite;

À noite sequer o ladrão de corações são percebidos;

Admiro Sêneca e suas impressões , mas não concordo com a de que a noite traz nossos problemas à tona, ao invés de bani-los;

Felizmente chegou a acalmar meu espírito, amo a noite, ela é sempre lúdica;

Na noite nada é definido, nada é exatamente o que vemos, é quase um encantamento;

Amo a imensidão da noite, o seu brilho discreto, o cheiro de mistério , a mera possibilidade dos sonhos, mesmo diante dos riscos do pesadelo;

Mas o que fazer , devo acordar e .... viver ou , no mais das vezes, sobreviver, é a vida pulsando, com receio , medo, sofrimento , mas pulsando...

Na noite nada é definido, nada é exatamente o que vemos e todos os gatos são pardos , é quase um encantamento;

Bom dia! mas prefiro o boa noite !, prefiro a claridade dissimulada da lua,não gosto de obviedades, gosto do véu, o sol é por demais óbvio...

E veio os raios de sol,toda a sua óbvia claridade a ferir meus olhos e me acordar dos sonhos ,um obrigatório despertar das ilusões da noite;

Prefiro a noite que de tão fria me permite entrar em minhas cobertas e me esquecer e me encontrar apenas em braços dele e voltar a me perder;

Prefiro a noite que não me deixa ver, não me deixa sequer olhar no espelho claramente, que me permite escapar de tudo, de todos, até de mim mesma;

Prefiro a noite que de tão negra posso me esconder dos meus demônios, posso esconder minhas imperfeições, me enganar e viver tolamente...

Prefiro a noite onde posso encarar a lua e me perder nela, e não o sol, que me encandeia e me fere os olhos, me acorda e me faz ver...,

Prefiro a noite ,onde apesar da insônia,num dado momento me entrego aos devaneios só possíveis em sonhos e lá , ao menos,,às vezes,sou feliz;

Prefiro a noite, onde os meus medos são fantasmas que me olham de soslaio e não me enfrentam...

"A noite expõe a nossa inquietação." (Sêneca) . Quanto a mim esconde meus medos;

“Não me digam que a noite é obscura e põe medo, porque disso eu já sei e me acende. O medo é excitante, inquietante”

“ O que mais amo na noite é sua permissividade e tolerância a tudo. Geralmente, é nela que retiramos as máscaras”

“ No burburinho da noite os limites se ampliam, as vezes além do esperado”

"A noite todas as coisas têm uma só cor"Ovídio.

“ De noite as imperfeições não aparecem, e desculpa-se todo defeito." Ovídio”;

"A noite é a metade da vida… e a metade melhor." (Goethe) Eu Concordo inteiramente;

"O que a noite trará é incerto." (Tito Lívio) Adoro surpresas;
"Há muito sinto os raios de sol como fogo a queimar meus olhos, como punhais a penetrar meu peito, o amanhecer tem sido perverso";

 "de um modo geral observei que de dia sempre se perde um pouco a fé" , disse Dostoiévski, e tb por isto amo a noite.
 Faz tempo que não sinto o cálido amanhecer em meu rosto...



quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DESEJO PARA 2011, NÃO, DESEJO PARA TODO O SEMPRE:


Que os sonhos de uma vida inteira se não realizados, sejam acalentados;

Que os fins não justifiquem os meios;

Que se a dor for inevitável, haja morfina na mesma proporção;

Que a dor, se inevitável, nos deixe mais fortes e resistentes;

"Que o gesto recupere o seu sentido”;

"Que a palavra recupere o seu tom insubstituível";

"Que o silêncio seja ouvido, como uma boa música”;

"Que o cenário não se limite ao decorativo", mas que contribua para o entendimento de um contexto

Que possamos sentir a noite, seus ventos mansos e sua luz sob um véu ,mesmo sem paixão ;

Que não sejamos fatais e não acreditemos na fatalidade a justificar os pesares;

Que tenhamos coragem de nos conhecer e que  o temor e o choque com nossos monstros não nos impeça;

Que o medo nos socorra diante de um abismo e nos faça recuar, mas se optarmos por pular, que possamos nos refazer da queda , mais fortes;

Que o passar do tempo pingue gota a gota e nos permita senti-lo em toda a sua inteireza, sem desperdício;

Que possamos olhar, vez por outra para trás para não esquecermos de onde viemos;

Que ao olhar o passado, a nossa história nos dê pistas para onde vamos;

Que não olhemos através, que possamos olhar e enxergar e ainda assim dizer: vale a pena estar aqui!;

Que possamos caminhar por bosques, mesmo que o caminho seja mais longo do que aquele asfalto sem curvas sinuosas, mas sem vida a ser contemplada;

Que tenhamos preparo para a vida cotidiana e sua rotina massacrante e que esta rotina assim não seja;

Que tenhamos coragem de pensar e repensar, mas que vez por outra possamos não pensar e esquecer;

Que nossos dias não sejam "dias de sanatório" e a ansiedade possa nos dar trégua;

Que o desespero não venha e se vier que possamos descrevê-lo, escrevendo, e se assim for, que os outros possam ler;

Que sejamos nós, e a imagem refletida no espelho nos agrade e que na solidão nosso eu possa nos fazer companhia;

Que não tenhamos solidão, principalmente se estivermos com nós mesmos;

Que se a solidão bater a porta de nossa alma, ou alcançar entrar fortuitamente, não nos amedronte a ponto de não nos suportarmos;

Que a opressão dos outros não nos imponha estarmos apenas com nós mesmos, mas que a nossa procura seja espontânea, uma necessidade nossa;

Que não nos percamos de nós mesmos, e se isto acontecer possamos nos achar a beira de um rio, olhando para a nossa imagem refletida;

Que a nossa pior mania seja a do silêncio;

Que ao olharmos pela janela, não tenhamos medo do que vamos ver e que a imagem seja como a mansidão da noite e não choque nossos olhos,

Mas se a imagem vista da janela nos chocar, fazendo-nos simplesmente quebrar, que possamos juntar os cacos do momento e que nem por isto nossa existência esteja despedaçada ;

Que possamos falar e ouvir, mas que não tenhamos tanta necessidade das palavras;

Que não sejamos uma estátua, apenas vista e às vezes admirada , mas , em geral, não compreendida;

Que o mundo interior e exterior não nos amedronte a ponto de não desejarmos conhecê-lo;

Que todo o conhecimento valha a pena,

Que não pretendamos fazer de nós mesmos uma pessoa perfeita, mas que até nossos defeitos nos complete , forme nossa identidade e nos orgulhe;

Que possamos ter liberdade de escolha e que tenhamos força para responder por todas elas;

Que ser livre não seja a nossa pior prisão;

Que a solidão almejada não nos seja insuportável;

Que não pretendamos ser únicos na multidão, mas que possamos nos reconhecer em alguém;

Que possamos ver e ouvir a diferença com tolerância e mais do que isto, nos permitindo rever conceitos e sermos também diferentes;

Que tenhamos mais certezas do que dúvidas, mas se a certeza for dolorosa, que possamos ao menos duvidar;

Que a nossa dúvida não se transforme em desconfiança com tudo e todos a olharmos o mundo com ceticismo, nos transformando em opositores;

Que possamos levar qualquer tipo de vida, e levando, possamos conservar nossa integridade, mas que possamos mudar;

Que possamos evitar o caos, mas se ele vier, que possamos enxergar vida pulsando nele e possibilidade de sairmos revigorados;

Que não esperemos a vida passar e a morte chegar;

Que a morte chegando, que ela nos surpreenda, para que não soframos inutilmente, pois o único sofrimento inútil é o que se dá pela morte ;

Que vez por outra possamos soltar o bicho que existe em nós, e que possamos sempre enjaulá-lo;

Que não empacotemos nossos sentimentos;

Que tenhamos nossa verdade, mas que respeitemos a verdade alheia, e que as verdades possam ser sopesadas, e que nenhuma seja absoluta e inexorável;

Que possamos enxergar caráter em tudo;

Que possamos ao menos uma vez ser crédulos e ingênuos como as crianças;

Que sejamos saudáveis, mas se a nosso corpo adoecer, que a nossa alma não fique doente e se ficar, que possamos curá-la;

Que não pretendamos carregar as dores do mundo;

Que possamos ser sensíveis às dores do mundo e solidários;

Que nossas dores encontrem sensibilidade e solidariedade de pelo menos alguém;

Que possamos nos satisfazer com o mínimo, mas que o máximo bata a nossa porta e possa entrar;

Que não precisemos da Justiça dos homens, muitas vezes falha, cega , esclerosada , desonesta e descomprometida;

Que se precisarmos da Justiça dos homens, que possamos nos deparar ,não só com a Lei,mas com o JUSTO, o honesto, o comprometido com a busca;

Que não nos contentemos com as migalhas permitidas pela Lei, mas possamos buscar o que, de fato, nos cabe, através do senso de Justiça;

Que o direito, seja de fato DIREITO, e não sejamos manipulados por ele, mas agentes transformadores;

Que ao menos um momento possamos crer ser possível subverter a ordem da vida;

Que possamos ousar ;

Que nossas necessidades básicas sejam satisfeitas, e em não sendo que possamos buscá-las, possamos falar, gritar, exigir, e alcançar;

Que em tendo filhos possamos vê-los nascer, crescer, comer, e dormir com dignidade e que jamais estejamos vivos para vê-los morrer e sofrer, mesmo que o inevitável;

Que a gente não tenha "só comida, mas comida , diversão e arte...";

Que possamos ir , mas que tenhamos para onde voltar;

Que sejamos humanos, mas crendo na imortalidade;

Que tenhamos paz e com ela o sossego merecido do guerreiro;

Desejo enfim, o impossível, o inesperado, a vida e não apenas a sobrevida;

Desejo Tudo .



















,

domingo, 12 de dezembro de 2010

POLITICAMENTE CORRETO É O CACETE-O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA-Luiz Antonio Simas


Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?
É Villa Lobos, cacete!
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda de dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.
Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo Total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé-na-cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do Pé Junto.











segunda-feira, 22 de novembro de 2010

PREFIRO AS BRUXAS...


Lembro-me vagamente, e a memória fora reavivada por histórias contadas por terceiros, que na época de escola, ainda com tenra idade, nas muitas brincadeiras deliciosas e despretensiosas da época, uma delas me chamava à atenção, a de estórias de contos de fadas, era uma espécie de teatro em que cada um escolhia o seu papel, e na corrida para alcançar o papel das fadas, princesas e rainhas, eu não costumava ansiar e participar da correria geral, aguardava o meu papel, aquele que ninguém queria ou buscava, o de bruxinha, fada má, e assemelhadas.


Eu sempre ficava quieta esperando pacientemente o corre-corre e inquietações das outras garotas para terem os papéis mais cobiçados, o das boas, maravilhosas e inverossímeis anjos, fadas, rainhas e princesas, pois o que me interessava, por inúmeras razões, era justamente a antagonista, as bruxas, as más, elas ficavam esquecidas num cantinho perdido, como se me aguardassem, me chamando como um canto de sereia, e, portanto eu não precisava me desgastar puxando as saias de minhas professoras, as “tias”, de um lado a outro para, a qualquer custo, ter o papel, ele estava lá e não era desejado, exceto por mim.

Por quais razões as “más” me encantavam, certamente não seria em razão do anseio pela maldade, pelo lado mais obscuro do ser humano, e que, definitivamente, todos temos, por mais aterrorizante que seja, não seria um desvio de caráter, assim espero, mas, talvez, porque eram elas as mais humanas, no sentido mais amplo da palavra.

Por serem humanas e nada mais humano do que o mal, elas roubavam, definitivamente, a cena, dominavam a história, mudavam os destinos, faziam rir e chorar, invocavam o ódio, a compaixão, e as vezes um amor secreto.

As bruxas são enigmáticas, mexem e remexem com a mente de todos, são temidas, mas todos querem chegar perto, tocá-las, trocar impressões com estes seres retratados no imaginário como mulheres encarquilhadas e manipuladoras, de onde se ouviria uma gargalhada terrível, o que seria apenas uma de suas inúmeras máscaras para exercitarem sua liberdade, para irem e virem, de onde e para onde bem quisessem.

Na verdade, seriam sedutoras e femininas, mulheres sábias detentoras de conhecimentos sobre a natureza , magia , sobre os homens , enfim.

Nada mais feminino que as bruxas, elas representariam o inconsciente e subconsciente, participando de todas as cenas, jogando com os demais personagens.

Quando criança achava uma chateação ser a Rapunzel, Cinderela, Branca de Neve, eram tão previsíveis, já sabíamos suas expressões, aliás, suas escassas expressões e falas, mas as bruxas,tão livres montadas em suas vassouras voando a qualquer momento, a qualquer hora, sem nenhum homem a lhes determinar o que fazer, o que dizer, quando e como, e que saíam do seu mundo para outro sem qualquer permissão, elas simplesmente me encantavam, me hipnotizavam.

Não suportava personagens como Escrava Isaura, As Helenas das novelas, tão inatingíveis, falsas, sem vida, tão improváveis, sempre dando a outra face.

Nada mais real e instigante do que as bruxas e suas roupas pretas maravilhosas, mas que se permitem curtir qualquer cor, rôxo, vermelho, até mesmo o pálido e sem brilho branco.

Garanto que ninguém jamais viu uma doce fada ou princesinha de preto, roxo ou vermelho, mas certamente já viram as bruxas com todas as cores possíveis a depender de cada momento, O arco-íris pertence as bruxas.

Imaginem uma Rapunzel trancada numa torre alta, sem poder sair, a espera do seu salvador, o príncipe encantado...

A branca de neve cuidando de todos aqueles homenzinhos, com nítida síndrome de Peter Pan, cozinhando, lavando, colocando-os para dormir, feito bebês e a espera de quem, ora, do tal príncipe encantado que a libertasse.

E todas as demais, sempre a espera de um homem que lhes dessem a carta de alforria, o príncipe libertador que, na realidade, parece, no mais das vezes, um sapo. Chato demais para mim, cansativo demais para qualquer uma que pretendesse alçar vôos, sem permissão, sem destino, numa vassoura, desregradamente, pelo mundo afora...

Sempre preferi as antagonistas, são elas mais próximas da realidade, de nós humanos, repletas de encantamentos, de magia, sedução, de altos e baixos, luz e sombra.

As bruxas  se opõem ao que fora estabelecido, aos preconceitos, aos padrões, elas são criativas, intuitivas, seres mágicos, terrenos, mas, ao mesmo tempo, sabem se adequar a determinada situação , em determinado momento, sabem jogar,portanto, nada além do bem e do mal, não são de discursos prontos, surpreendem, criam, ousam, caem e levantam, não se cansam e não cansam ninguém.

Lilith, ser mitológico hebraico,a primeira mulher de Adão,criada em pé de igualdade com ele, seu companheiro e não o seu senhor, que os “bons” colocaram no esquecimento,justamente por personificar uma bruxa, enquanto, Eva, seria a representação daquelas monótonas princesas sempre limpas, sempre lindas, falando baixo, sussurrando, obedientes,com medo de tudo e de todos.

Lilith , a bruxa, é a representação do lado marginal , personificação da liberdade, que rechaça a subserviência, não se submetendo a Adão, aos homens , enfim, sexualmente ativa, e que sabe valer-se da sedução, ou seja, naturalmente bruxa. http://pt.wikipedia.org/wiki/Lilith.

As bruxas personificam a feminilidade, muitas vezes renegada, e pelas próprias mulheres, pelas senhoras, as generosas, as cristãs, as mães de famílias, rainhas do lar.

A insubmissão é a marca indelével, as bruxas sussurram, se não forem ouvidas, gritam, esbravejam se necessário for, para a conquista de seus espaços, de seus desejos, mas também sabem calar, tudo no seu tempo.

Aquela figura grotesca de nariz enorme, com uma verruga, trapos velhos, cabelos desgrenhados e de idade avançada, fora criada justamente pelos “bons” para o combate a insurreição das mulheres, aquele lado feminino e que diz, Não, embora, por vezes, também digam Sim.

Criado o estereótipo repugnante para que nenhuma mulher almejasse ser mais, se sobrepor aos limites impostos, ser uma bruxa, mas, na verdade, por trás daquela figura, que também poderá ser utilizada pelas bruxas e garanto que elas conhecem e sabem envelhecer, temos a sensualidade, o belo, a independência, sabedoria.

O arquétipo da bruxa representaria uma ameaça à ordem imposta, é como se o mundo fosse sempre de uma cor só, a cor clara, o branco, o cor-de-rosa que aprisiona todas nós, uma ditadura, o lado bruxo nos diz que podemos vestir tais cores, mas podemos vestir qualquer cor, negro e roxo ,dependendo do nosso momento.

As antigas superstições como a da bruxa má e velha encontram-se suavizadas, devido a uma luta incessante, a uma crescente libertação das mulheres num mundo essencialmente intolerante e opressor.

O mundo não pertence apenas às princesinhas, o mundo não é cor-de-rosa, e nós mulheres devemos conservar os dois lados, a princesa, mas principalmente a bruxa, a Eva e a Lilith.

Não acho que dar a outra face seja humano, não, definitivamente pertence a Cristo, a imortalidade, por isto prefiro as bruxas, podem até dar a outra face, mas como ser humano que são, seria improvável.

A hipocrisia é reinante, ou seja, “não basta ser honesta, tem que parecer honesta”, e honestidade ao longo da história toma acepções as mais diversas, sendo, por vezes, confundida com santidade ou algo parecido e já dizia o grande Balzac, amante das mulheres com M maiúsculo: “A santidade das mulheres é inconciliável com os deveres e as liberdades do mundo...”.

Sou mulher, amante da lua e esposa do sol, mas o melhor é que haja todos os tipos de homens, mulheres, de seres humanos, a diversidade é fundamental, seja para exercitarmos o direito de escolha, seja para apreendermos e evoluirmos.

O contraponto só existe diante da diversidade. Que bom que há fadas e princesas em um mundo cor-de-rosa, mas, ainda bem que há as bruxas, enigmáticas, belas, sedutoras, absurdamente prepotentes, sábias, enfim, maravilhosas, em seu tubinho preto a voar numa vassoura por entre a lua. Que bom que há borboletas e mariposas, pombas e corujas. Que bom que podemos a cada instante escolher entre uma e outra, mas eu... Bem, eu prefiro as bruxas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

FOGUEIRA DAS VAIDADES



Quando estava na Faculdade de Direito do Recife ouvia falar, em tom jocoso,sem entender as razões:“O Direito é a área que tem mais imbecil por metro quadrado”, findo o curso continuei sem entender o sentido da afirmação.

Passados alguns anos comecei a perceber que talvez a tal imbecilidade traduzia-se numa vontade incessante e insana que parte dos aplicadores do direito teriam em ser mais do que o rei.

Alguns deles, notadamente, promotores de justiça e juízes, insistem numa queda de braço, na imbecilidade de medir forças para, ao final, saber quem mandaria mais, quem é o “bambambam”, qual deles imporia a sua vontade, em suma, qual deles imbecilmente, seria mais do que o rei´.

Neste cenário verifica-se uma guerra nos bastidores, e alguns, ou melhor, muitos, entendem que qualquer alteração mínima que seja nesta ou naquela lei representaria uma perda de parcela do poder que eles pensam, em sua imbecilidade, deter.

Assim, mudanças como a reforma processual penal, notadamente, no artigo 212 e seu parágrafo único da Lei 11690/2008, se presta ao palco de um espetáculo deplorável, onde aplicadores do direito, que deveriam comprometer-se acima de tudo com os princípios constitucionais como guardiões da Constituição, se digladiam por migalhas do tal Poder, e já fora dito “Todo Poder Corrompe”.

Ora, a modificação introduzida pela reforma processual penal de 2008, ou seja, mais de dois anos, mas que parece que foi ontem, diante de muitos operadores do direito que não conseguiram digeri-la, procurou, simplesmente, assegurar o que a Carta Magna desde 1988, mais de 20 anos, já previa: a imparcialidade necessária dos magistrados. Mas, acabara transformando-se num campo fértil às batalhas inglórias.

Temos assim, que a imparcialidade, quase um ideal, posto que sempre defendemos algo, sempre somos movidos por interesses os mais diversos, neste caso se apresentaria como palpável, plenamente possível, a assegurar simplesmente a eqüidistância necessária a qualquer julgador.

Juiz deve se investir da função de juiz, de presidente do feito e não lançar mão da espada que cabe a acusação, mesmo que em nome do mais honroso ideal de Justiça. Cada aplicador do direito, em nome da segurança jurídica, deve ter seu papel devidamente delimitado, para que um não pretenda arvorar-se de substituto processual de outro, para o resguardo das Instituições envolvidas no “jogo” processual, a assegurar direitos e garantias individuais e, conseqüentemente, a assegurar todos nós.

O promotor de justiça é o titular da ação penal e fiscal da lei, representando os interesses da sociedade, o magistrado preside o feito e realiza a prestação jurisdicional, julgando, embora, obviamente, também defenda os interesses da sociedade, o que o faz de forma reflexa, enquanto que o advogado ou defensor, representa os interesses do seu constituinte.

Todas as funções apresentam os seus complicadores, e todas são IGUALMENTE necessárias e indispensáveis à prestação jurisdicional, embora cada uma, em algumas ocasiões, esperamos que em poucas, pretenda ser o centro das atenções sobrepondo-se a outra, impondo uma DESIGUALDADE que deve ser combatida.

Assim, verificamos que ao garantir a imparcialidade necessária ao magistrado e reservar a função de acusador ao Ministério Público, no caso de Ação Penal Pública, determinando que as indagações às testemunhas sejam iniciadas pelas partes e não mais pelo julgador que, ao final, entendendo restar esclarecimentos a serem feitos, passará a indagar a testemunha, o legislador, alheio a tais inúteis “guerrilhas”, abriu espaço a um verdadeiro rebú, onde parte dos magistrados é contrária à modificação, contrapondo-se à lei e, pior ainda, aos princípios constitucionais envolvidos no tema, pois parte deles temem transformar-se de protagonistas a coadjuvantes, sentimento equivocado e motivado por mera vaidade. Não sabem eles que protagonista só o povo e coadjuvantes todo o resto.

Como diz Luiz Roberto Barroso: “Constatei que a história, por vezes, anda rápido. E o impossível de ontem é o insuficiente de hoje”, portanto falta tal percepção a muitos aplicadores do direito que insistem em deitar-se em berço esplêndido, contrariando leis, o que é pior, princípios constitucionais basilares do Estado Democrático de Direito, aguardando posicionamentos e decisões do STJ e STF, jamais na vanguarda, mas sempre a reboque, a interpretar as leis em bases falsas, ou seja, a garantir suas atribuições, o seu "poder", independentemente dos princípios, não arregaçando as mangas  realizando cada um a interpretação das leis diante dos ditames constitucionais, valendo-se da hermenêutica.

Em nome de apegos nada honrosos não estamos sendo invadidos pelo necessário “sentimento constitucional” que prescindiria, inclusive, de uma lei, de algo concreto, seria, sim, uma questão de princípios, princípios de vida, uma atitude diante dela.

A atitude reinante, lamentavelmente, é a de manutenção da “ordem” mesmo que esta “ordem” seja uma verdadeira desordem, seja a manutenção de privilégios, a manutenção de parcelas equivocadas de poder, mesmo que tudo isto represente um tumulto desnecessário a tramitação processual, mesmo que contrariando interesses da sociedade, contrariando a Constituição, que deveria ser, em primazia, observada pelos aplicadores do direito.

Nos deparamos com juízes gritando insanamente, como se o respeito fosse garantido no grito, promotores que também se valem de atos insanos, mas algumas vezes da subserviência frente aos urros dos magistrados, e advogados que, por vezes, gritam, mas que muitas vezes se curvam diante dos demais, postura que, não raramente, prejudicam os seus constituintes.

Tropeçamos em promotores e juízes que se calam frente às afrontas a Constituição, quando não são os primeiros a afrontá-la sob o equívoco de uma curiosa legalidade, incompreensível diante dos princípios constitucionais.

Vemos juízes e promotores entendendo que advogados devem, em nome da regular tramitação processual, prescindir da presença de seus constituintes presos e não apresentados pelo Poder Público, não arrolar testemunhas que imponham retardos processuais, quando na verdade, a primeira situação é um direito, em observância ao princípio da ampla defesa, em razão da possibilidade dos acusados fornecerem  subsídios indispensáveis a sua defesa técnica, e a segunda é um direito que deverá ser observado pelos demais aplicadores, a evitar que testemunhas arroladas por carta precatória ou rogatória sejam um mero expediente protelatório e tal vigilância caberá aos demais, aos que defendem não este ou aquele, mas o Estado amplamente falando.

Cada um que grite mais ou se cale mais, e o demais é sobra.

Assim, nesta fogueira de vaidades, sobram os subservientes e os tiranos, os usurpadores.

Neste jogo processual o rei é a vontade popular representada pelo sentimento constitucional, por seus princípios escritos ou não.

É preciso que o sentimento constitucional invada-nos , é preciso que o respeito a cada atribuição de um aplicador do direito invada-nos, é preciso gritar menos, calar menos, curvar-se menos e agir mais, um agir cuja limitação é apenas uma : Os princípios.

Há diversas formas de arbítrio e uma delas, a afrontar a ampla defesa, o contraditório e, portanto, o devido processo legal é tentar “garfar” as atribuições de outro aplicador do direito, é tentar amordaçar os demais atores deste jogo processual, é pretender, a qualquer preço, ser o protagonista exclusivo, fazendo os demais, forçosamente, de coadjuvante, é dizer imbecilmente : eu sou ! , e nas entrelinhas dizer: Eu posso tudo ! eu mando!, posição que se traduz na célebre frase: “L’Etat c’est moi” .







segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Macrocriminalidade e a Necessidade de Adequação dos Procedimentos Processuais Penais: Substituição de Testemunhas

Diante da macrocriminalidade , notadamente, nos crimes envolvendo tráfico de drogas por grupos com nuances de organização criminosa, me vi diante de um dilema quanto ao número de testemunhas a serem arroladas e substituição destas.
A questão, aprioristicamente, seria de fácil solução e estaria claramente prevista no art.54 da Lei 11343 de 2006 , que estabelece o número de até 5 (cinco) testemunhas a serem arroladas pelas partes.
Entretanto imagine-se diante de um processo altamente complexo com um número elevado de acusados, mais de 15 (quinze) , com características de organização criminosa , onde o Ministério Público , em nome da legalidade, arrolasse cinco testemunhas contra a possibilidade da defesa , da mesma forma, arrolar cada uma cinco testemunhas, mas ao total, estaríamos diante de um somatório de 75 ( setenta e cinco) testemunhas de defesa, posto que há possibilidade de cada grupo de cinco, referente a um único acusado, mencionar dados do caso e outros tantos acusados, ou seja, por parte da Defesa seriam 75 ( setenta e cinco testemunhas) contra 05 (cinco) arroladas pela acusação.
Imaginemos os processos frutos das chamadas grandes operações policiais, com alvos diversos, locais diversos de atuação, e apenas cinco testemunhas arroladas pela acusação a falarem quanto a um número elevado da acusados, 10, 15, 20 , 25 ou mais.
Nas grandes operações policiais, o elevado numero se suspeitos ou alvos impõe todo um planejamento na deflagração, na abordagem, na formação do inquérito policial, na apresentação da acusação e portanto nas testemunhas a serem arroladas pelo Órgão Ministerial.
Para a deflagração das operações se faz necessário, os chamados briefing , ou seja, um conjunto de informações, uma coleta de dados, passadas em uma reunião para o desenvolvimento de todo um trabalho de investigação, onde deve ser criado um roteiro de ação para ensejar uma melhor solução , mapeando o problema, constituindo-se em uma peça fundamental para o sucesso da investigação policial, um elemento chave para o entendimento da abordagem a ser feita .
Assim, em tal briefing os policiais são divididos em grupos visando a abordagem e cumprimentos de mandados de prisão a cada alvo (suspeito) e de busca e apreensão, e apenas tomam conhecimento de seus respectivos alvos e dados da operação pouco tempo antes da deflagração, poucas horas antes, isto a tentar evitar o vazamento de informações e prejuízos irremediáveis.
Tais operações , diante do elevado número de acusados e complexidade do tráfico que formaria uma engenhosa rede, enseja a oitiva de diversas testemunhas da associação criminosa, da prisão, da busca , enfim do que fora apreendido, da traficância em si a possibilitar as provas que a acusação apresentará na denúncia.
Quanto maior o número de suspeitos, maior o número de alvos, maior o número de acusados e consequentemente maior o número de testemunhas.Contudo, a lei de drogas determina que cada parte apresentará até cinco testemunhas e a acusação, inquestionavelmente, se vê prejudicada, pois é tarefa das mais difíceis que cinco testemunhas se prestem a informar sobre um número elevado de acusados, cuja atuação, prisão e apreensão de bens e produtos criminosos se deram de forma diversa.
Ora , por mais que o grupo criminoso seja único, que a rede ou organização criminosa seja única, são peças desta um número elevado de acusados, cujas condutas se emaranharam . Cada acusado tendo direito a cinco testemunhas, que poderão se deter, não apenas quanto ao acusado responsável pela apresentação da testemunha , mas a outros, coloca o Ministério Público em situação desigual ao final.
Como o Órgão ministerial poderá abarcar toda a acusação, todos os acusados se apenas dispõe de cinco testemunhas a falar , muitas vezes, não apenas quanto a cinco acusados, mas quanto a um número considerável deles .
Portanto, neste cenário tormentoso para o Órgão Ministerial, entendemos que o princípio da igualdade deveria ser invocado a autorizar a possibilidade de serem arroladas até oito testemunhas, em tais casos , número máximo admitido pelo Código de Processo Penal que, subsidiarimente, deverá ser buscado , quando do silêncio da Lei de drogas, mas também quando da resolução de conflitos desta natureza, a minimizar os prejuízos impostos quando da instrução dos processos criminais referentes a grupos organizados.
Quanto a possibilidade de substituição de testemunhas pelas partes, diante do silêncio da reforma processual a respeito , em razão de não mencioná-la no art. 397 do CPP , posto que a nova redação trazida pela Lei 11.719, de 20.06.2008 passou a ocupar-se da absolvição sumária, omitindo-se o legislador com relação à substituição de testemunhas, e abrindo as seguintes possibilidades: a primeira é no sentido do magistrado deferir as substituições requeridas, independentemente, de qualquer fundamento que seja. A segunda quanto à impossibilidade de substituir testemunhas. A terceira orienta a aplicação da analogia que supra a omissão do legislador.
Entendemos que as duas primeiras posições não se sustentam a mínima análise, seja pelo princípio da motivação das decisões, seja pelos prejuízos ao contraditório e a ampla defesa.
Quanto a razoável posição que faz referência à analogia. Defendemos a aplicação analógica do CPP 543 “ O juiz determinará as diligências necessárias para a restauração, observando-se o seguinte:I - caso ainda não tenha sido proferida a sentença, reinquirir-se-ão as testemunhas podendo ser substituídas as que tiverem falecido ou se encontrarem em lugar não sabido;
Temos assim, um forte motivo para socorrer as partes autorizando a substituição, como há outros: Não comparecimento ou apresentação injustificada de testemunha arrolada. Não se tratando, obviamente, de ato desleal da parte,capricho ou objetivando tumultos e retardos processuais.

Ora, a possibilidade de substituição de testemunhas deve estar presente quando elas não são localizadas, por motivo de força maior , como morte de alguma testemunha e por fim, deverá também ser possível diante de novas informações trazidas aos autos a acusação ou a defesa, bem como pelo não comparecimento justificado da testemunha.
O magistrado deverá, ainda, considerar os princípios da celeridade e economia processuais, invocando o trinômio necessidade, pertinência e utilidade, ou seja, se a solicitação pela substituição, seja por parte do Ministério Público , seja por parte da Defesa irá ou não impor prejuízos a marcha processual.
Assim, deverão ser considerados os fundamentos invocados pela parte que pretende a substituição, sendo ouvida a parte contrária, aferindo-se a necessidade e utilidade da pretensão e, por fim, a pertinência, o momento processual em que se dá a pretensão, e se a medida irá impor retardos à tramitação processual ou, ao contrário, favorecerá a celeridade e economia processuais.
Portanto, a depender dos motivos da substituição, se a parte solicitante, mesmo que na audiência de instrução e julgamento, apresenta a testemunha que efetivamente pretenda ouvir, sem que se desse a necessidade de fragmentação do ato processual ou adiamento com intimações e novas designações , entendemos ser por demais engessado não se admitir a substituição, notadamente se irá evitar retardos processuais, como se daria, caso uma testemunha arrolada na denúncia ou na defesa preliminar não comparecesse, ou não fosse apresentada e houvesse insistência da parte o que ensejaria uma nova audiência em continuação.
Há ainda a curiosa situação de designações da audiência de instrução e julgamento para mais de um dia, devido, justamente, a alta complexidade do processo pelo caso apresentado e pessoas a serem ouvidas, em que todas as partes, acusados e testemunhas necessitariam estar presentes todos os dias, independentemente que esta ou aquela pessoa fosse efetivamente ouvida neste ou naquele dia, o que, em geral ocorre nos processos frutos de grandes operações e com elevado número de acusados.
Ora, em tais casos todos estariam intimados, salvo expressa determinação do juízo em contrário, a todos os dias, constituindo-se, na verdade, num único ato processual que se estenderia por diversos dias. Assim, estando no momento de ser tomada as declarações desta ou daquela testemunha e do não comparecimento ou não apresentação injustificada, com a parte solicitando, não a insistência a impor todo um retardo processual , mas sim a substituição por pessoa que estaria pronta para ser ouvida naquele momento , a impor o devido prosseguimento do feito, não vemos como tal substituição possa ser rechaçada, principalmente , se tal testemunha , embora não arrolada pela limitação do número, consta dos autos , assinando determinado relatório, participando de alguma diligência ou de serviço de inteligência, sequer a surpresa poderá ser alegada por parte de quem quer que seja.
O que não se deve conceber é que as partes não possam expor seus fundamentos, que estes fundamentos não sejam sopesados pelo magistrado e que este não decida motivadamente, ou seja, enfrentando as teses apresentadas pela defesa e pela acusação, obviamente, no momento em que forem feitas as solicitações, na própria audiência de instrução a evitar retardos indevidos e tumultos a tramitação processual.
Enfim, deverão ser considerados os princípios do devido processo legal, contraditório, ampla defesa, motivação das decisões judiciais, celeridade e economia processuais.