sábado, 9 de março de 2013
sábado, 14 de julho de 2012
Anjos vencendo os porcos...
“ O ser humano, um anjo sentado em um porco
desproporcionalmente maior do que ele” , sim, é , sim, somos anjos esparramados
em porcos , por mais que nos assustemos com nós mesmos e nossa capacidade de devorarmo-nos, a história,
e sempre ela, a nos mostrar do que somos capazes e incapazes , nos dá conta que
estamos caminhando a algum lugar melhor, sempre o melhor estar por vir,
costumamos chamar isto de evolução.
O passado humano, o que , na verdade, nunca passa e sempre
esta nos olhando de soslaio , nos mostrando , jamais fora pacífico como costumamos , melancolicamente ,
pensar , sempre nos devoramos cruelmente ou , em alguns instantes, com tolas
desculpas que apenas se prestam a nos enganar e manipular o outro.
Desde sempre o instante que passou nos aponta que fomos
piores do que somos.
Não apenas os grandes e piores nomes foram cruéis , todos
nós fomos e somos, mas parece que a cada dia menos, a cada dia aprendemos , a
cada dia nos exterminamos menos.
Não se trata apenas do desejo de sermos anjos , mas de
números, de estatística , ela nos mostra que a cada dia estamos melhores , que
o nosso passado, aquele logo ali, a nos vigiar e nos ensinar , sempre nos
alfabetizou, tudo resume-se em educação.
Antes eramos piores do que somos.
Apenas no séc. XX a criança , um bom termômetro para a nossa
evolução seria como as tratamos, começa a ser tratada como criança e a ser
considerada esta fase especial: a infância , ou melhor, na verdade a criança
começa a ser considerada como pessoa.
Quanto mais retornamos ao princípio da humanidade , mais
encontramos crianças lançadas a própria sorte, gente exterminando gente em jogos, para delicia da multidão, e em praças públicas ,como se isto fosse
Justiça. Sim, evoluímos, somos mais gente do que antes , somos mais crianças do
que antes e mais considerados em nossa individualidade e coletividade, ainda
nos devoramos e nos exterminamos por nada , mas menos do que antes e hoje menos
do que ontem.
Com o surgimento do Estado, a institucionalização da justiça
e seus direitos e garantias individuais nos permitimos que os anjos começassem a
derrotar os demônios ou , ao menos, que os enjaulassem em nossas profundezas ,
e isto vem livrando-nos da barbárie, a cada dia um pouco mais, amanhã mais do
que hoje.
Em Leviatã podemos
observar o quanto a convivência nos beneficia e que antes de nos associarmos a
vida humana era “solitária, miserável, repugnante, brutal e curta” .
Olhamos pela janela, saímos e voltamos , abrindo e fechando
portas, nos olhamos, nos enxergamos, cada vez mais , cada vez com mais fé na
tal humanidade, “o anjo civilizatório, enfim aprisionou a maldade inata do
homem”, eu diria que a cada dia vem aprisionando , que os anjos não ganharam a
guerra, mas ganham batalhas e assim o ser humano vem perseguindo a sua
humanidade.
domingo, 17 de junho de 2012
Anjos e Porcos , Todos Em Nós.
Diante
da iminência da realização de um júri, onde a vítima era um garotinho de apenas
05 anos, violentado e assassinado, lembranças remexeram e me
deparei com um passado recente, e , na verdade, “o passado nunca está morto e
nem mesmo é passado”, já diz a frase que Hannah Arendt tanto gostava do escritor americano William Faulkner, assim
bateu na porta da minha memória uma enxurrada de notícias sobre a tragédia
vivida pela menina Isabella Nardoni ( garotinha assassinada pelo pai e madrasta
)e todo o caso envolvendo o casal Nardoni , com os detalhes mais sórdidos sobre
o fato e o julgamento passado e repassado, inclusive sequer me saiu da mente os
nomes dos envolvidos , sejam protagonistas, coadjuvantes, nome do promotor de
justiça e tudo o mais e , mesmo que eu pretendesse esquecer, a imprensa não
deixava.
De
outra banda, inevitavelmente, remexendo no cesto de papéis a esquecer me veio a
macabra história dos dois irmãos de Santo André, São Paulo, que nem mesmo me
lembrava dos nomes , e tal esquecimento,
próprio do país dos desmemoriados, notadamente quando a imprensa , sempre ávida
por tragédias, sequer informa devidamente sobre o desenlace do fato, e fiquei
me remoendo, indócil, me sentindo culpada por não saber, por esquecer.
Revolvendo
o baú empoeirado no desejo de que aqueles dois irmãos não representassem apenas
números arquivados, mas que se apresentassem , ainda que mortos, com rosto e
nomes, descobri suas faces , seus nomes, sua curta história, e o desenlace
daquele crime , me senti pior ao novamente sentir a dor por me deparar com o
lado mais obscuro e inexplicável do tal ser humano , mas aliviada por ter me
recordado, porque fatos há que não devemos esquecer, mas apenas guardar , para
vez por outra relembrar e nos confrontarmos com o mal, que mora em nós, e assim
sairmos vitoriosos ou nos perdermos de vez.
João
Vitor e Igor , dois irmãos que tinham apenas um ao outro e todo o mundo a
descobrir, 13 e 12 anos de idade , pouca vida e muito sofrimento, a mãe os
havia deixado , ao que parece, já fugindo daquele pai opressor e tentando
salvar da violência as duas filhas de um primeiro relacionamento.
João
Vitor e Igor , cujo pai e a madrasta queriam bem longe de suas vidas, o que
parece, pelo medo, também era um desejo dos dois irmãos , tanto assim que
frequentemente estavam pelas ruas, buscando sorte melhor e chegaram a passar
nove meses em um abrigo, sim, abrigo, tudo que não tinham com o pai,
acolhimento , até o dia que o Conselho Tutelar e a Juíza do caso entenderam que
eles deveriam retornar ao desabrigo , ao lado do pai e da madrasta , expressamente
contra ao desejo dos dois, o que se constituiu , na prática, numa verdadeira sentença de
morte, independentemente da argumentação e fundamentação de cada um.
E
assim foi que no dia 05 de setembro de 2008 o pai matou o Igor , a madrasta
liquidou com João Vitor e depois procuraram apagar as marcas , tentando queimar
os corpos, esquartejando-os, dando descarga das vísceras, jogando os restos em
sacos de lixo, como sempre foram tratados , que depois seriam espalhados pela madrasta
para que fossem levados para sempre dali , e o pai se encaminhava ao seu
trabalho, tudo como sempre.
Em
suma, foi assim a curta história dos irmãos João Vítor e Igor , mas quase nada
fora mencionado pela ávida imprensa, que mesmo quando se equivoca e se omite
vale a pena ser mantida com toda a sua liberdade , sem mordaças , afinal, o que
seríamos de nós sem a sua fala , seu grito, ou , por vezes, a voz tímida, sem a sua
busca, , mas que neste caso pouco informou, apenas sussurrou, de tal forma que
tive que ir buscar o desfecho e a história destes irmãos que pouco tiveram,
sequer a informação devida, foram logo e prontamente esquecidos, sem sequer
sabermos o que aconteceu.
Me
veio a mente a indagação das razões para a imprensa, em determinados casos, ir
tão longe, mais do que informação, na sordidez dos detalhes, fazendo-nos não
raras vezes , ver sangue e cheirar fezes , mas em outros , um quase nada, deixando-nos
indagando, sem respostas.
Por
outro lado ,me deparei , quando do trucidamento destas crianças, com pessoas
indignadas , não com o assassinato e com os criminosos, pai e madrasta das
crianças, mas curiosamente com a mãe que os teria “abandonado”, quase sempre a
mulher culpada pelo que fez e pelo que não fez.
Sem pretender comparar crimes, e abandonos, de
toda a sorte o que deveria ter sido questionado na ocasião era o horror do
assassinato e não um possível abandono da mãe, este último com chances de ser
revertido, o assassinato, inexorável, uma execução bestial, de fato, vivemos
uma época de inversão de valores, e toda esta podridão , estes atos bestiais ,
também me fez recordar de uma citação que diz: “queremos provocar sangue ,
cheirar fezes, causar medo, queremos a fogueira .Nem todos, nem sempre. Mas que
em nós espreita esse monstro inimaginável e poderoso , ou simplesmente medíocre
e covarde , como é a maioria de nós , ah! Espreita”.
Sim, somos seres escatológicos, temos que lidar com o bem e
o mal em nós, e que isto não se preste a um alento aos responsáveis por atos bestiais que nos
deparamos diariamente e que nos é , no mais das vezes, incompreensível, somos
capazes de tudo, de bom e de mau, mas somos capazes de conter o mal, de
aprisiona-lo, de enjaular nossas feras, e há os que confrontam-se com elas e as
mantém aprisionadas , jogando as chaves fora, ou guardando-as para um confronto,
muitas vezes necessário, há os que saem vitoriosos deste confronto , mas há os
que alimentam suas feras, acalentando-as para que , em determinado momento,
elas possam ser soltas, há os que sucumbem ao mal porque o desejam e por tal
escolha devem ser punidos, é o mínimo de controle social que não temos como
prescindir.
É fato, que nada alcança a sordidez humana , que “ a
sordidez e a morte cochilam em nós, e nem todos conseguem domesticar isso”, é
fato que há os que sucumbem a este mal, há os que se esparramam por sobre
porcos desproporcionalmente maiores, mas também há os que conseguem domesticar
este mal, há os que confrontam o mal , o olham de frente e dizem Não, e saem vitoriosos, e espero que eles sejam a
maioria esmagadora de nós, para o nosso próprio bem, para a sobrevivência da
humanidade sobre a desumanidade .
Temos que passar pelo lamaçal , mas há os que passam com
pernas de pau, cuja sujeira minimamente os atinge , há os que passam correndo e
que mais ainda são atingidos pela lama, mas há os que chafurdam nela e se
regozijam de algum forma.
É a nossa maior liberdade, o direito de escolha, e que
possamos ser responsabilizados devidamente por cada uma delas. E no fim de
tudo, considerando ações e omissões , NINGUÉM É INOCENTE!
sábado, 2 de junho de 2012
EM VEZ DE VER TELEVISÃO...PENSANDO PENSAMENTOS...
Esta
frase de Adriana Falcão resume, ludicamente, o que vem a ser um filósofo
" é quem , em vez de ver televisão , prefere ficar pensando
pensamentos." , mas penso, pensando meus pensamentos, que o sentido de
filosofar é tentar explicar para ver e viver melhor, para sermos
felizes... cada um tem seu modo de filosofar, mas quase sempre estamos filosofando.
Os nossos pensamentos sempre se digladiam em torno de indagações e respostas.
Não raramente, nós mesmos, e todos os outros, tentamos agrilhoar os pensamentos , e não raramente, quando não somos nossos próprios algozes, nós permitimos que sejam nossos pensamentos encarcerados numa caverna, onde apenas nos é permitido ouvir zumbidos e ver sombras, mas sempre conseguimos escapar , mesmo que por um breve instante e assim podemos pensar pensamentos e escolher respostas, escolher caminhos, ainda que nos desencaminhe... e aí está a nossa liberdade.
Não raramente, nós mesmos, e todos os outros, tentamos agrilhoar os pensamentos , e não raramente, quando não somos nossos próprios algozes, nós permitimos que sejam nossos pensamentos encarcerados numa caverna, onde apenas nos é permitido ouvir zumbidos e ver sombras, mas sempre conseguimos escapar , mesmo que por um breve instante e assim podemos pensar pensamentos e escolher respostas, escolher caminhos, ainda que nos desencaminhe... e aí está a nossa liberdade.
Temos
a tal " mania de explicação" como se explicando e entendendo
pudéssemos viver melhor e felizes , mas retirar o véu das palavras pode
ser penoso ,mas também prazeroso, a busca nos faz sorrir e sofrer, nos faz
ver , descobrir, e enxergando nos
ferimos, mas terminamos por sermos diferentes e melhores do que antes de
colocarmos nossos conceitos numa mesa embaralhando-os e depois os
realinhando, dos ferimentos descobrimos a cura, ou encaramos a nossa
própria ineficiência,e tudo isto nos é indispensável.
Somos
aquele cego que ao enxergar sente o impacto , a dor , mas por trás dela
, a imensa alegria do ver , do perceber , a possibilidade da busca da felicidade, sempre ela nos
aguardando e fugidia .sempre indo e vindo , nos acenando.
Assim
vamos indagando, filosofando, buscando explicações, inventando,
complicando para melhor manipularmos, ou simplificando , mas sempre com
esta mania de explicação...
Sempre
que nos indagamos quanto a vida e a morte, quanto as nossas questões
mais mundanas e mais íntimas, quanto aos motivos de nossa felicidade e
infelicidade , estamos na verdade indagando, buscando, garimpando,
descobrindo e encobrindo , estamos filosofando e até mesmo inventando
explicações ... Sempre esta necessidade.
E
assim estamos buscando ver, enxergar,estamos , enfim, vivendo ,
procurando viver melhor e não apenas sobrevivendo, o que, convenhamos, já
seria tarefa das mais árduas,e isto se dá mesmo quando mergulhamos
num abismo em busca de alguma suposta verdade ou fugindo dela.
Me
pergunto porque a filosofia é sempre vista de forma tão distante e
surreal, tão aterrorizadora, se ela faz parte do nosso próprio pensar e
da nossa busca incessante pela felicidade... Sim , felicidade, aquele
pote de ouro, não de tolo, na base do arco-íris que, em geral, apenas
encontramos nos sonhos.
Viver é teleológico, já dizia aquele
senhor Aristóteles num de seus melhores momentos, porque ele , como
qualquer um de nós , teve os piores, como quando tentou explicar a tal necessidade
de escravizarmos uns aos outros.
Dependemos sempre
do nosso propósito,dos nossos objetivos e por mais que tentemos nos
desviar e nos esconder em outros tantos, sempre o objetivo final da
vida será a tal felicidade.
Mas que esta
felicidade não seja confundida meramente com prazer , como pensam e
defendem os utilitaristas, onde a dor é relegada e afastada como algo a
ser temido, mas tratemos da felicidade que nos ensina a sentir prazer e
dor, cada qual no seu momento, cada qual no seu instante supremo.
Assim
nós seres humanos, desumanos, temos que lidar com mais esta
estranheza, saibamos lidar com o prazer e a dor, tenhamos o conhecimento
de senti-los pelas razões que eles mereçam ser sentidos, portanto
alinhemos dor e prazer , tudo no momento certo , no nosso melhor e
pior momento, pelas mais elevadas razões vivendo-os e aprendendo com
eles , caminhando, portanto e não apenas correndo loucamente sem
sentirmos a brisa , sem pegarmos atalhos por entre os pântanos e
mangues, sempre deliciosos e reveladores.
Para
a busca desta felicidade , que mais parece água a escorrer por nossos
dedos e por nossas faces , por todos os nossos poros , temos que
exercitar a busca, em nós mesmos e nossas profundezas sem fim, mas
essencialmente com os nossos pares, semelhantes a nós ou nem tanto
assim.
E não seria a busca de nós, enquanto
seres humanos , e procurando fazer jus a esta definição , a busca das
virtudes , do aprimoramento , por mais inatingível que isto possa nos
parecer... Nós, os tais seres humanos, não deveríamos ter como caminho
para realização do propósito de sermos felizes, a promoção , não da
bondade , mas de algo ainda mais elevado, a Justiça, que teria o
propósito de dar a cada um o que lhe é devido, diante do princípio da
igualdade , mas não deixando de lado que cada um de nós partimos nesta
corrida de pontos de largada diversos, e , portanto considerando as
desigualdades a nos diferenciar , a nos fazer singulares.
Assim
não devemos apenas nos associar, e não apenas fazermos meras alianças, mas tentarmos fazer das leis mais do que um
instrumento de manipulação dos mais sofisticados e eficazes, mas sim
de garantia de vida , e de vida boa, , uma regra de vida para nos
tornarmos não apenas bons, mas justos e assim a felicidade buscada e
possível possa ser enfim distribuída eqüitativamente.
É
preciso que nos habituemos a busca da felicidade , praticando,
exercitando , tentando, relembrando que "tornar-se virtuoso é como aprender a tocar
flauta..." e não há quem aprenda a toca-lá apenas lendo livros, vendo
filmes e ouvindo , temos que tocar flautas, praticar as virtudes em busca desta tal
felicidade, e assim "tornamo-nos justos praticando ações justas ,
comedidos praticando ações comedidas e corajosos praticando..." e
felizes também praticando...
Cultivemos nossos
melhores hábitos, sejamos virtuosos e assim a felicidade baterá em nossa
porta , seja como for, com todo o seu prazer e sua dor.
A
nossa melhor ou pior companhia, poderá ser nós mesmos... Mas temos que
sair do isolamento, mesmo que estejamos repletos de nossa própria
presença ou de " saco cheio" dela e praticar tudo o que lemos, ouvimos,
pensamos , temos que nos relacionar, temos que conviver , temos que
participar , temos que mandar ver , do
contrário nossos pensamentos e aprendizados apenas se prestarão a fazer
nascer bestas ou deuses , mas não homens, mulheres, seres humanos e quem
sabe ... Cada vez menos desumanos.
sábado, 12 de maio de 2012
À MInha Mãe...
Que influência é esta que sinto desde sempre?Que peso...Que leveza! Por vezes tão insustentável.
Sempre me indaguei sobre esta tal influência que sinto como se fosse todo o peso do mundo, mas sempre como se fosse toda a libertação deste mundo.
Que senhora é esta , cujos braços me abraçam e me sufocam, mas que a cada submergir me ensina a respirar, me reensina, meu balão de oxigênio, meu ar?
Que anjo é este das asas abertas que me encobrem, me elevam, que me fazem voar, mas que me puxam a terra, ao chão , ao início de tudo, ao pó, me fazem aterrizar?
Quem é ela , uma sombra, minha sombra, a não me deixar caminhar sozinha ... sempre lá, imponente e , por vezes, impotente, mas sempre lá a me acompanhar?
Quem é este fantasma a me assombrar , mas que vela meu sono, meus sonhos, devaneios, que me cerca, me cobra, me acalenta, me relembra que não estou só, mesmo que eu queira estar?
Quem é ela que passou as bases dos meus valores, princípios que não me largam , que me acorrentam, mas que me fazem alcançar a libertação , que me agrilhoam numa caverna, como a me proteger, mas que me possibilitam romper as amarras e correr em busca de mim mesma , em busca do meu pote de ouro na base do arco íris e assim me lembram de onde vim, para onde vou, quem sou, o que posso ser?
Aquela que me jogou mundo afora... mundo cão...mundo imundo, mas que deixou a porta entreaberta para que pudesse voltar, perdida ou reencontrada, ao meu pequeno e profundo mundo.
Aquela que escancarou as janelas, e me mostrou o mundo , seus terrores e seus encantos, mas que me alertou que há mais , que minha vista não alcançava , que eu poderia ficar, mas que eu teria que ir, para ver mais e mais, e me aterrorizar e me encantar mais e mais e assim me largou no mundo, e assim deixou-me ir , que não me escondeu dele, por mais que o quisesse , mas que deixou aquela porta entreaberta , para que eu pudesse voltar e assim me encolher em suas entranhas , para me realimentar , para sugar, mesmo que eu a vampirizasse e depois a largasse , passando pela porta entreaberta, e sumindo no mundo...
Aquela que me dá vida a cada retorno , a cada passagem por aquela porta por onde vou , mas por onde volto, sem medo ou com todo o medo do mundo ,a me abrigar e voltar a ser embrião, feto, gente a readquirir forças para novamente passar por aquela porta, a que nunca se fecha, o único nunca que falo sem medo, porque ela é sempre...
E assim eu saio pela porta entreaberta... e volto, e sempre ela lá com suas asas de anjo, com suas ancas e colo de mulher .
É ela... é mãe... Minha mãe, SIM, MINHA...SEMPRE.
quinta-feira, 15 de março de 2012
AMADURECER

Quebram-se os ossos
os momentos vazios ( de mim).
Despedaça-me abraçar minha própria tristeza.
Morte lenta .
Diluir-me.
Liquidar-me do que fui,
sem deixar de ser um só instante.
Descarregar o peso do adeus
àquela que está indo,
acolher, com oaciência, outra chegando.
Deus.
Abraçando-se inteira e sem tempo,
O que fui , o que sou.
A incontrolável transformação.
( Rosângela Ferraz - Águas de Chuva)
quinta-feira, 8 de março de 2012
SE SHAKESPEARE TIVESSE UMA IRMÃ...
Virgínia Woolf , nascida em Londres (1882) , opondo-se aos rígidos valores sociais e morais vitorianos , sempre buscando o respeito que cabe ao tal ser humano, e não a um homem ou a uma mulher, mas não desconsiderando a majestade da singularidade de cada ser, que se deparou com a impossibilidade de ser encaminhada aos estudos, ao contrário do que se dera com seus irmãos homens , que ouvira que os homens eram, desde sempre, superiores às mulheres, que , aliás, neste contexto pouco seriam , que se viu impedida de adentrar nas bibliotecas, por ser mulher, valendo-se dos restos de leituras dos seus irmãos e do que o pai lhe concedia , com migalhas, portanto , do conhecimento que tanto desejava , mas transformando-as em verdadeiros banquetes , para o deleite de todos até os nossos dias, em Um Quarto Só Para Si , indaga e responde, revela-nos...
Se Shakespeare tivesse uma Irmã...
“ (...) seja como for , não deixei de pensar , quando vi a obra de Shakespeare ,na prateleira , que o bispo, pelo menos numa coisa tinha razão , teria sido completa e inteiramente impossível para qualquer mulher escrever as peças de Shakespeare na época de Shakespeare. Imaginemos ,visto que os fatos são tão difíceis de encontrar , o que teria acontecido a Shakespeare tivesse uma irmã espantosamente dotada , chamada Judith, digamos. O próprio Shakespeare foi, muito provavelmente , _ a mãe era rica_ para uma escola onde pode ter apreendido latim _ Ovídio, Virgílio e Horácio_ lógica e gramática elementares. Era ,sabe-se bem , um rapaz estouvado que caçava coelhos furtivamente, talvez abatesse a tiro um veado e foi obrigado , muito cedo do que devia , a casar com a mulher das redondezas , que lhe deu um filo muito mais cedo do que era conveniente .Essa leviandade forçou-o a tentar fortuna em Londres .Tinha, julga-se , gosto pelo teatro , começou por segurar os cavalos à porta do teatro .Dentro de pouco tempo arranjou trabalho , tornou-se u ator cm sucesso e vivia no centro do Universo encontrando toda a gente , conhecendo todos , exercendo a sua arte nos palcos e o seu talento nas ruas , conseguindo até ter acesso ao palácio da rainha . Entretanto, sua irmã extraordinariamente dotada , suponhamos , ficava em casa . Era tão aventureira , tão imaginativa , tão ansiosa por ver o mundo como ele . Mas não a mandaram à escola . Não teve qualquer oportunidade de aprender gramática e lógica , para não falarmos na leitura de Horácio e Virgílio. De vez em quando, apanhava um livro , um dos de seu irmão , talvez, e lia umas páginas .Mas nesse instante , os pais entravam e mandavam-na remendar umas meias ou olhar pelo guisado e não andar na lua com livros e papéis .Ter-lhe-iam falado com rispidez , mas com bondade , pois eram pessoas de posses que conheciam as condições de vida da mulher e amavam a filha_ Na verdade , o mais provável e não o contrário era ela ser a menina dos olhos do pai .Escondida num sótão onde guardavam maçãs talvez escrevinhasse umas páginas , mas tinha o cuidado de as ocultar e queimar Em breve , porém , antes da adolescência deveria ficar prometida em casamento com o filho de um comerciante de lã vizinho. Gritou que o casamento lhe era odioso e, or causa disso , o pai bateu-lhe severamente .A seguir, deixou de lhe ralhar . Em vez disso , rogou-lhe que não o magoasse , que não o envergonhasse com este assunto do casamento .Dar-lhe –ia um cordão de contas ou uma bonita saia interior , disse com lágrimas nos olhos , como é que era capaz de lhe despedaçar o coração ? Só a força do seu dom a levou a isso : fez um pequeno embrulho com os seus pertences , desceu por uma corda numa noite de verão e tomou a estrada para Londres .Não tinha dezessete anos .Os pássaros que cantavam nas sebes não eram mais musicais do que ela. Tinha uma imaginação viva , o mesmo dom do irmão para a música das palavras. Como ele, tinha gosto para o teatro .Pôs-se à porta do teatro , queria representar , disse. Os homens riram-lhe na cara .O empresário- um homem gordo e dissoluto – deu uma gargalhada estrondosa .Rugiu qualquer coisa acerca de um cães de água a dançar e mulheres a representar _ nenhuma mulher , disse, tinha possibilidades de ser atriz .Sugeriu...podeis imaginar o quê. Nem conseguiria quem a orientasse em sua arte. Conseguiria acaso jantar numa taverna ou deambular pelas ruas à meia-noite ? Todavia o seu talento era o da ficção e ansiava alimentar-se insaciavelmente das vidas dos homens e mulheres e estudar os seus hábitos. Finalmente _ pois era muito jovem , estranhamente parecida com o rosto de Shakespeare , o poeta , com os mesmos olhos cinzentos e sobrancelhas arqueadas _ finalmente, Nick Greene , o actor –empresário teve pena dela ; por isso , ela ao descobrir que estava grávida desse cavalheiro _ quem vai medir o calor e a violência do coração do poeta quando apanhado e enredado no corpo de uma mulher?_ matou-se numa note de inverno, Está sepultada num cruzamento onde os autocarros agora param em frente de Elephant and Castle.
Isto , mais ou menos , é como a história se desenrolaria, na minha opinião , se uma mulher , no tempo de Shakespeare tivesse tido o gênio de Shakespeare .
Mas, pela minha parte , concordo com o falecido bispo – se de fato o era- que seria impossível ter existido uma mulher no tempo de Shakespeare com o gênio de Shakespeare .Um gênio como Shakespeare nas nasce entre pessoas que apenas trabalham, sem educação, servis .Não nasceu na Inglaterra nos temos dos saxões e dos bretões .Não nasce hoje nas classes trabalhadoras. Com, poderia então, ter nascido entre as mulheres cujo trabalho começava , de acordo com o professor Travelyan , quase antes de deixarem o quarto das crianças , forçadas pelos pais a respeitar a lei e os costumes ? Todavia há um gênio qualquer que pode ter existido entre as mulheres , assim como pode ter existido entre as classes trabalhadoras . De vez em quando uma Emily Bronte ou um Robert Burns irrompem , manifestando a sua presença(...)
Ah! se cada um de nós tiver quinhentas libras por ano e um quarto só para si ; se tivermos o hábito da liberdade e a coragem pra escrever exatamente aquilo que pensamos ; se nos escaparmos, um pouco que seja da vulgar sala de estar e observarmos outros seres humanos nem sempre nas suas relações com os outros , mas na relação com a realidade; e , olharmos também para o céu , as árvores ou seja o que for que exista neles ; se virmos perto de nós o fantasma de Milton , pois nenhum ser humano deve impedir essa visão ; se enfrentarmos o fato , pois é um fato, de que não há um braço para nos apoiarmos nele , mas que seguimos sozinhas e que a nossa relação é com o mundo da realidade e não só com o mundo dos homens e das mulheres , então a oportunidade surgirá e a poetisa morta que foi a irmã de Shakespeare vestirá o corpo que tantas vezes deixou de usar .Traçando a sua vida e partir das vidas dos seus desconhecidos precursores , como o irmão fez antes dela , nascerá. Não podemos esperar que, ao renascer, lhe seja possível viver e escrever a sua poesia sem aquela preparação , sem aquele nosso esforço , sem aquela determinação .Mas mantenho que ela viria se trabalhássemos por ela , e que vale a pena trabalhar assim , mesmo na pobreza e na obscuridade”.
Um Quarto Só Para Si _ Virgínia Woolf
sábado, 3 de março de 2012
A Mulher
Um ente de paixão e sacrifício ,
De sofrimento cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração sequer!
Sê forte , corajoso, não fraquejes
Na luta , sê em Venus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e inafame e os homens
Se te temem gemer hão de pisar-te!
Se 'as vezes tu fraquejas , pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;
E gritam então os vis: "olhem, vejam
É aquela a infame! e, a apedrejam
A pobrezita , a triste , a desgraçada!
Ó mulher ! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoideceram
Enquanto a boca ri alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de amor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
( Trocando Olhares- Florbela Espanca-13/03/1916)
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